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domingo, 24 de novembro de 2013

[Filme aos domingos] Quero Ser John Malkovich


Não creio que seja um exagero dizer que foi um desafio encontrar um filme para inaugurar esta seção. Eu adoro filmes. Minha lista de dez filmes favoritos tem, pelo menos, duzentos títulos. Aliás, acho que jamais serei capaz de afirmar que tenho UM filme predileto. Cada vez que me fazem esta pergunta, dou uma resposta diferente.

Pois bem, acabei por escolher um que, durante um tempo (mais de uma semana para ser exata), ainda no início da década passada, considerei meu favorito - Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich, 1999). Dirigido por Spike Jonze (já altamente conhecido por sua carreira como diretor de videoclipes), e roteirizado pelo então estreante na função, Charlie Kaufman (genial!), este é um caso raro de roteiro inteiramente original. É diferente de qualquer coisa que se tenha visto antes.

Craig Schwartz (John Cusack) é um manipulador de marionetes que, depois de ficar desempregado por alguns meses, consegue um emprego como arquivista em uma empresa. O fato incomum é que o escritório está localizado no sétimo e meio andar do edifício. Meio, pois o teto é muito baixo, o que obriga os funcionários a andarem sempre curvados. Como se não bastasse essa bizarrice, Schwartz encontra sem querer, atrás de um arquivo, uma espécie de portal que dá acesso à cabeça do ator John Malkovich. Dessa forma, ele resolve ganhar dinheiro alugando o portal para diversas pessoas que desejam ser John Malkovich; tragados para a mente do ator e permanecendo lá durante quinze minutos, até serem arremessadas para fora, curiosamente para uma estrada na saída de New Jersey.

O roteiro excêntrico, no entanto, fala de coisas simples, ainda que perigosas. O protagonista utiliza seu talento com marionetes para adentrar a mente de Malkovich e manipulá-lo da mesma forma que fazia com seus bonecos. Assim, de maneira filosófica, metafórica e com foco em questões existenciais, temas como a perda de identidade e autonomia, o domínio sobre o outro, a essência humana, a insanidade que provém da total ausência de controle sobre si mesmo e seus desejos, a obsessão por status e celebridades e até mesmo algo mais profundo como a reencarnação, são tratados nessa brilhante película, resultado surreal da parceria entre diretor e roteirista - aliás, uma relação equilibrada, pois o filme é de ambos, não tem como dizer que um é mais autor do que o outro. 

Todo o elenco está ótimo, apresentando um desempenho sem igual. Destaque para John Cusack e Cameron Diaz (com uma aparência totalmente desleixada). Há uma overdose de sequências antológicas, mas a melhor de todas é quando Malkovich usa o portal e adentra a própria mente. O final, belo e melancólico, é certamente capaz de tocar o espectador mais apático e desacreditado. Inteligente e sofisticado, apresentando uma tênue linha entre a comédia e o drama, é um filme que vale ser visto e revisto, pois a cada nova revisão, percebemos algo novo que havíamos deixado escapar da última vez.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

[78 Rotações] Adriana Calcanhoto


Foi assim, sem querer e sem perceber, que comecei a gostar de Adriana Calcanhoto. Durante muitos anos, eu apenas me limitei a ouvir alguns de seus clássicos, obviamente a melancólica Mentiras, Metade (que foi trilha sonora de uma novela das sete, se bem me lembro), e a bonita Mais Feliz, composta por Cazuza. Ouvi algumas outras de seu álbum dedicado ao público infantil, Adriana Partimpim, mas não me entusiasmei. 

Em meados do ano retrasado, se não me engano, decidi corrigir este erro e fui atrás de alguns vídeos de shows da cantora no youtube (e Deus inventou o youtube!). Fiquei me perguntando porque demorei tanto a conhecer mais de seu trabalho. No ano passado, ouvi pela primeira vez Senhas de 1992, seu segundo álbum de estúdio, do qual fazem parte dois de seus grandes sucessos - o já citado Mentiras e Esquadros, que é de uma sensibilidade ímpar. Senhas é um álbum inspirador. Que disco maravilhoso, coeso, repleto de boas letras e arranjos. É inegável o fato de que Adriana é uma exímia intérprete, compositora e violonista. Suas canções são capazes de produzir naqueles que o ouvem com atenção, emoções tão variadas quanto a sonoridade de seu álbum. 

Grande parte das faixas são de sua autoria, mas o disco também conta com covers dos Titãs e Barão Vermelho (Milagres e Miséria, respectivamente), porém sempre com o seu toque autoral. A identificação com algumas de suas letras são imediatas. Transitando de maneira sutil entre o som mais urgente e as canções mais melódicas, com uma agradável mistura de ritmos e algum experimentalismo, Adriana Calcanhoto nos presenteou definitivamente com um dos álbuns mais deliciosos de se ouvir de que se tem notícia. 

E da seção: "músicas que eu gostaria de ter composto", fiquem com Senhas.

 

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
Eu gosto dos que têm fome
E morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

[Meus Escritos: Pouca Poesia] Oficina de Memórias



Fragmentadas, esquecidas, revisitadas.
Oficina de memórias.
Memórias refratárias.
Refratadas. Retratadas.
Tento, em vão, recordar-me de uma vida que simplesmente esqueci de viver.
Assassinei o meu outro lado, o meu outro eu.
Ou suicidei-me pela metade enquanto brindava com um espectro de amigo.

(2006)

X

[Screencap] The Truman Show



- Quem é você? 
- Sou o criador de um programa de televisão que dá esperança, alegria e inspiração a milhões de pessoas. 
- Então, quem sou eu? 
- Você é a estrela. 
- Nada era real? 
- Você era real. Foi o que fez com que fosse ótimo assistir a você. Escute, Truman, não existe mais verdade lá fora do que no mundo que eu criei para você. Onde há mentira... Há falsidade. Mas no meu mundo... Não tem nada a temer. Conheço você melhor do que você mesmo. 
- Você nunca pôs uma câmera dentro da minha cabeça. 
- Você tem medo. É por isso que não consegue fugir. Tudo bem, Truman. Eu entendo. Tenho observado você durante toda sua vida. Vi o seu nascimento. Vi quando deu o primeiro passo. Vi você no seu primeiro dia de escola. O episódio no qual você perdeu o primeiro dente... Não pode partir, Truman. O seu lugar é aqui. Comigo. Fale comigo. Diga qualquer coisa. Diga qualquer coisa, droga! Você está na televisão! Você está ao vivo para todo o mundo. 
... 
- Caso não volte a vê-los, bom dia, boa tarde e boa noite.