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domingo, 23 de fevereiro de 2014

[Filme aos domingos] Caçadores de Obras-Primas


Baseado no livro de Robert M. Edsel, The Monuments Men: Allied Heroes, Nazi Thieves, and the Greatest Treasure Hunt in History, o quinto longa da carreira de George Clooney como cineasta, narra a operação de uma unidade militar especial designada pelo governo dos EUA a recuperar obras de arte roubadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

O longa parte de uma premissa que, se bem explorada, poderia render uma história interessante. Ainda conta com o carisma e talento de um bem selecionado elenco que traz nomes como Matt Damon, Cate Blanchett, Bill Murray, Hugh Bonneville, Jean Dujardin além do próprio Clooney. Sem contar os méritos da direção de arte que presenteia o espectador com um primoroso trabalho de reconstituição de época.

É uma pena que todos esses elementos sejam desperdiçados em um narrativa arrastada e com um senso equivocado de auto-importância que fazem o filme parecer longo demais e até desnecessário. É lamentável como Caçadores de Obras-Primas não acerta no tom. Falha tanto quando a história requer dramaticidade e emoção quanto no timing cômico. Não há equilíbrio, não empolga e diverte pouco. Pra completar, o comumente ótimo Alexander Desplat erra a mão na partitura com temas pouco inspirados, que apelam para o sentimentalismo barato, e acabam por dar um ar demagógico e manipulador ao enredo.

É no mínimo estranho, pois estamos falando de um filme de um diretor deveras competente, mesmo que com uma filmografia irregular. E o charmoso elenco bem que poderia sustentar a história, mesmo não sendo bem conduzida. Mas não é o caso. O pior é o fato de que durante a projeção, aqui e ali, a vontade de dar mais uma chance (pensando que em algum momento ele vai encontrar o tom adequado) é grande. É um filme que a gente quer gostar, mas nem toda boa vontade do mundo faz com que ele seja funcional. Prometendo demais e cumprindo de menos, a impressão que prevalece após a última sequência (clichê e melodramática) é a de puro desperdício.

O filme se encontra em cartaz nos cinemas.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

[A vida, o universo e tudo mais] Destrua Este Diário - Parte 1

Ganhei de uma amiga muito especial, a Monique Lima - que inclusive está ali na lateral direita, dentre os membros do blog :)

Foram poucas as destruições por enquanto, mas o processo tem sido bem divertido. Não só é um retorno delicioso à infância, como uma boa forma de aprender a exercitar o desapego (que é algo que eu preciso muito!). Afinal, imagina o livro chegar lindo pelo correio, um presente de uma amiga tão querida, e você ser obrigado a destrui-lo? manchá-lo com tinta, terra, saliva, cola e outras substâncias improváveis? costurá-lo, rabiscá-lo, molhá-lo, arrancar páginas, etc... Mas, depois da primeira tarefa escolhida, a destruição flui que é uma maravilha. 

Abaixo, algumas das tarefas colocadas em prática:

Tarefa #1: Marcas de mão ou impressões digitais


Tarefa #2:  Escrever de trás para a frente

(O texto é uma passagem clássica do livro O Encontro Marcado de Fernando Sabino)


Tarefa #3: Desenhar linhas e borrá-las

(Breaking Bad domina minha mente)


 Tarefa #4: Costurar a página


Outro dia eu volto com mais destruições ;)

*Cheers*

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

[Screencap] Pulp Fiction - Silêncios Desconfortáveis



- Você não odeia isso? 
- O que? 
- Silêncios desconfortáveis. Por que sentimos a necessidade de tagarelar idiotices para ficarmos confortáveis? 
- Não sei. 
- É quando você sabe que encontrou alguém especial. Quando você pode simplesmente calar a boca por um minuto e dividir o silêncio confortavelmente.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

[Filme aos domingos] Frances Ha


A temática de Frances Ha nos remete à série Girls da HBO. Mas, felizmente, Frances é muito mais simpática e divertida do que a Hannah com seu eterno narcisismo e exagerado senso de autoimportância. Frances, em contrapartida, não é nada disso. É desajeitada, sente-se excluída, tem dificuldade em praticar o desapego, além de possuir baixa autoestima. Ela é uma bailarina, mas longe daquele estereótipo de perfeição, requinte e delicadeza das bailarinas ao qual nos acostumamos. Frances é uma garota comum e bastante descoordenada, o que é um paradoxo. 
 
A embalagem, a princípio, dá a ideia de um longa inacessível para o grande público. Um filme indie com fotografia em preto e branco. Mas a identificação imediata com a protagonista desfaz rapidamente essa impressão equivocada. Algo que o diretor Noah Baumbach já havia deixado claro em A Lula e a Baleia, é que, em seu cinema, a aproximação do espectador com os personagens acontece por conta das situações vivenciadas, como uma conversa sincera entre um e outro, como um compartilhamento de experiências. O filme é um retrato bem direto do início da vida adulta, com diálogos honestos, personagens deslocados e não necessariamente belos, com dramas comuns inerentes a todos nós. E é por isso que ocorre essa empatia. 

Se o medo e a renúncia em crescer já era um problema que a personagem-título tentava disfarçar a qualquer custo com justificativas banais, quando sua melhor amiga, Sophie, deixa o apartamento em que elas vivem juntas por conta de uma vaga de emprego em um lugar melhor, isso se torna ainda mais aparente. Dessa forma, tendo de dividir um apartamento com outras pessoas, ela tenta buscar a mesma conexão que tinha com Sophie. Sem sucesso. Aliás, sua vida parece ser composta apenas de  malfadados eventos que se sucedem ao longo da narrativa.

Ela tenta se encontrar voltando para casa e se reaproximando de seus pais e de suas origens. Depois, fazendo uma curta viagem à Paris em que nada dá certo. Em seu silêncio, reflete sobre as oportunidades que perdeu e, quando ela fica sabendo por intermédio de outros o que sua antes inseparável amiga anda fazendo da vida, em sua expressão de espanto é notório que ela está tentando procurar respostas para o motivo de a amiga se afastar dela e excluí-la de decisões importantes acerca do futuro. É engraçado como você se sente tentada a interagir com a personagem, como acenar para os pais dela na hora em que ela se despede no aeroporto ou querer se sentar ao seu lado numa troca de desabafos a respeito dos fracassos nossos de cada dia.
 
Fugindo dos clichês e padrões do cinema indie que o tornou, nos últimos anos, pretensioso e formulaico, Frances Ha trata-se de um filme belo e melancólico, que ressalta a ideia de que não podemos fugir por muito tempo das responsabilidades, dos deveres, da obrigação de amadurecer, de quem definitivamente somos. 
 
A cena final em que a protagonista finalmente consegue o que tanto almejava, aquele momento especial com outra pessoa, é lindíssima e a trilha sonora é perfeita. É uma canção de David Bowie que ilustra o melhor momento do longa - a cena em que Frances corre pelas ruas ao som de Modern Love, que dá vontade de reprisar mil vezes de tão deliciosa que é.

Posso dizer seguramente que Frances Ha foi o meu filme de 2013.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

[A vida, o universo e tudo mais] Leituras do ano - 2014

Confesso que não li muito em 2013. Estava tão compenetrada nas séries que assisto (e o número de séries que compõem a minha watchlist cresceu substancialmente), e nas minhas HQs de X-Men (decidi reler boa parte delas, incluindo as sagas A Era do Apocalipse e Dias de Um Futuro Esquecido - cujo filme baseado na mesma estreia neste ano), que acabei dando pouca atenção aos livros. A maior parte dos livros que li foram com o objetivo de escrever meu trabalho de conclusão da pós-graduação. Portanto, em 2014, decidi estabelecer algumas metas de leitura.

Vou começar com alguns livros do Neil Gaiman. Já fazia muitos anos que eu era fã do trabalho de Gaiman nos quadrinhos quando decidi, finalmente, ler um romance assinado por ele. Eu conhecia Gaiman de Sandman, Livros da Magia e de Batman: O Que Aconteceu ao Cavaleiro Das Trevas? No ano passado, li Belas Maldições que ele escreveu em parceria com Terry Pratchett e, logo após, Lugar Nenhum que se tornou um dos meus livros favoritos. O Oceano no Fim do Caminho eu ganhei de presente da minha amiga mais que querida, Ana Carol (ou divatonks, como ela é conhecida no incrível universo das redes sociais). Já li o primeiro volume de Coisas Frágeis, agora falta o segundo :)

Além de Gaiman, duas séries compõem minha lista de leituras de 2014: a trilogia Fronteiras do Universo e O Guia do Mochileiro das Galáxias. Tenho muita curiosidade em ler ambas, mas fui adiando em prol de outras sagas literárias. Não vou adiar mais.

Me identifiquei muito com a sinopse de Métrica - a menina que perde o pai e muda de casa com a mãe e o irmão. Algo simples, mas foi exatamente o que aconteceu comigo nos últimos anos.

A Ascenção do Governador, como o próprio nome não apenas sugere, como deixa bem claro, narra a origem e a trajetória do ótimo vilão da série The Walking Dead para chegar ao poder de  Woodybury, um refúgio de civis em meio ao apocalipse zumbi, que acabou por se tornar uma cidade com suas próprias leis e regras e comandada com mão de ferro pelo Governador. Interessante por apresentar o background de um dos personagens mais expressivos da série.

Fantasmas do Século XX eu ganhei inesperadamente em um sorteio do site Coolt Blog. É uma coletânea de contos de terror que angariou algumas boas críticas devido ao estilo da narrativa (sensorial, perturbadora e atraente, segundo o que foi dito sobre o livro). Eu não sou fã do pai do autor de Fantasmas, Joe Hill. Nem um pouco. O pai dele atende pelo nome Stephen King... Sim, eu sei, é uma blasfêmia não gostar de King. Em minha defesa, digo que todos os seus livros partem de premissas brilhantes, mas sofrem com um desenvolvimento aquém do esperado. Contudo, gosto muito de A Torre Negra. Vamos ver o que acho do trabalho de Hill. 

Segue a lista das leituras de 2014, com as respectivas fotos dos livros.

O Oceano no Fim do Caminho


Coisas Frágeis


Métrica

 


Fronteiras do Universo


O Guia do Mochileiro das Galáxias

 
A Ascensão do Governador


Fantasmas do Século XX


domingo, 9 de fevereiro de 2014

[Filme aos domingos] Edifício Master


Depois de um hiatus de três semanas, entre viagens e outros assuntos familiares que me forçaram a ficar longe do blog, cá estou novamente com um filme para se curtir neste domingo.

O último dia 2 de fevereiro foi triste para os amantes da sétima arte. Nos despedimos de um ator grandioso, Phillip Seymour Hoffman, que partiu aos 46 anos, deixando mulher, três filhos e uma carreira brilhante, permeada de personagens marcantes como Lancaster Dodd (O Mestre) e Truman Capote (Capote) que lhe valeu um Oscar de melhor ator em 2005. Assim como ocorreu com o talentoso Heath Ledger e o promissor Cory Monteith (só para citar casos mais recentes), sua morte foi consequência do uso abusivo de drogas.

Outro triste fim teve o cineasta e documentarista Eduardo Coutinho, de 81 anos, que dirigiu os brilhantes Jogo de Cena e Edifício Master. O filho de Coutinho, que possui problemas mentais e sofre de esquizofrenia, matou o próprio pai a facadas, tentou matar a mãe (que foi internada em estado grave no hospital) e, depois, tentou o suicídio. 

Perdas irreparáveis. Ambos, em seus melhores momentos na carreira. Não tem como não dizer que eles farão falta.

Edifício Master é um fascinante estudo de personagens da realidade cotidiana. Tendo como cenário um tradicional edifício localizado em Copacabana, no Rio de Janeiro, o documentário reúne uma série de entrevistas reveladoras e tocantes de seus residentes. São histórias que cativam a atenção do espectador. Coutinho registra tudo de forma crua, direta e sem floreios. E mesmo assim, possui um lirismo inconfundível, típico das obras do cineasta. O que impressiona é a diversidade de personagens que moram no edifício, bem como a diversidade de emoções que transmite ao espectador. A unidade em comum é o fato de residirem no mesmo local, mas suas origens e idades e experiências de vida são o que os distinguem uns dos outros. Na verdade, a maioria ali sequer se conhece e raramente se esbarram. Estão próximos e distantes uns dos outros. Tanto no que diz respeito ao espaço, quanto às suas essências e discursos em frente às câmeras.

Eu nunca morei em apartamento, mas sempre que frequentava os apartamentos de parentes ou amigos da família, se manifestava em mim aquela curiosidade a respeito das pessoas que dividiam o edifício com meus familiares ou conhecidos. Quem eram aqueles sujeitos que tomavam o mesmo elevador que eu? Ou que eu via saindo de seus apartamentos enquanto eu estava indo visitar quem quer que fosse? E, de suas janelas, lá no alto, eu espionava a vida lá embaixo, ou a vida dos moradores dos prédios da frente. Via o interior de suas casas, observava a decoração. Quando assisti Janela Indiscreta, de Hitchcock, compreendi a obsessão do personagem de James Stewart. Nutrimos natural e inevitavelmente essa estranha curiosidade pela vida dos outros. Suas características, manias, similaridades e distinções.

O documentário de Eduardo Coutinho sacia essa curiosidade aos nos apresentar pessoas com tantas nuances em suas personalidades, o que transforma a obra em um profundo e intimista estudo do ser humano, focando nas  diferentes pessoas que habitam o mesmo edifício, nas batalhas pessoais que elas travam todos os dias ao longo de suas singelas vidas. Além disso, explora o espaço em que se desenvolve a ação com um interesse genuíno, nos transmitindo seu fascínio pelo lugar em questão. O olhar do documentarista desperta no espectador também este entusiasmo em absorver o quanto puder das realidades fragmentadas e experiências narradas na tela, buscando a aproximação e, por que não, a identificação? Queremos conhecer mais e mais daquelas pessoas, indivíduos tidos como "marginalizados" pela sociedade, mesmo morando em um edifício situado em um bairro nobre. Coutinho sabia como prender a atenção do espectador com histórias simples, mas profundas. Ele retratava o humano com sensibilidade e sem distorções, nos fazendo lembrar do quanto as pessoas são complexas e possuem, cada uma, seu encantador universo particular.