[Screencap] Pulp Fiction - Silêncios Desconfortáveis



- Você não odeia isso? 
- O que? 
- Silêncios desconfortáveis. Por que sentimos a necessidade de tagarelar idiotices para ficarmos confortáveis? 
- Não sei. 
- É quando você sabe que encontrou alguém especial. Quando você pode simplesmente calar a boca por um minuto e dividir o silêncio confortavelmente.

[Filme aos domingos] Frances Ha


A temática de Frances Ha nos remete à série Girls da HBO. Mas, felizmente, Frances é muito mais simpática e divertida do que a Hannah com seu eterno narcisismo e exagerado senso de autoimportância. Frances, em contrapartida, não é nada disso. É desajeitada, sente-se excluída, tem dificuldade em praticar o desapego, além de possuir baixa autoestima. Ela é uma bailarina, mas longe daquele estereótipo de perfeição, requinte e delicadeza das bailarinas ao qual nos acostumamos. Frances é uma garota comum e bastante descoordenada, o que é um paradoxo. 
 
A embalagem, a princípio, dá a ideia de um longa inacessível para o grande público. Um filme indie com fotografia em preto e branco. Mas a identificação imediata com a protagonista desfaz rapidamente essa impressão equivocada. Algo que o diretor Noah Baumbach já havia deixado claro em A Lula e a Baleia, é que, em seu cinema, a aproximação do espectador com os personagens acontece por conta das situações vivenciadas, como uma conversa sincera entre um e outro, como um compartilhamento de experiências. O filme é um retrato bem direto do início da vida adulta, com diálogos honestos, personagens deslocados e não necessariamente belos, com dramas comuns inerentes a todos nós. E é por isso que ocorre essa empatia. 

Se o medo e a renúncia em crescer já era um problema que a personagem-título tentava disfarçar a qualquer custo com justificativas banais, quando sua melhor amiga, Sophie, deixa o apartamento em que elas vivem juntas por conta de uma vaga de emprego em um lugar melhor, isso se torna ainda mais aparente. Dessa forma, tendo de dividir um apartamento com outras pessoas, ela tenta buscar a mesma conexão que tinha com Sophie. Sem sucesso. Aliás, sua vida parece ser composta apenas de  malfadados eventos que se sucedem ao longo da narrativa.

Ela tenta se encontrar voltando para casa e se reaproximando de seus pais e de suas origens. Depois, fazendo uma curta viagem à Paris em que nada dá certo. Em seu silêncio, reflete sobre as oportunidades que perdeu e, quando ela fica sabendo por intermédio de outros o que sua antes inseparável amiga anda fazendo da vida, em sua expressão de espanto é notório que ela está tentando procurar respostas para o motivo de a amiga se afastar dela e excluí-la de decisões importantes acerca do futuro. É engraçado como você se sente tentada a interagir com a personagem, como acenar para os pais dela na hora em que ela se despede no aeroporto ou querer se sentar ao seu lado numa troca de desabafos a respeito dos fracassos nossos de cada dia.
 
Fugindo dos clichês e padrões do cinema indie que o tornou, nos últimos anos, pretensioso e formulaico, Frances Ha trata-se de um filme belo e melancólico, que ressalta a ideia de que não podemos fugir por muito tempo das responsabilidades, dos deveres, da obrigação de amadurecer, de quem definitivamente somos. 
 
A cena final em que a protagonista finalmente consegue o que tanto almejava, aquele momento especial com outra pessoa, é lindíssima e a trilha sonora é perfeita. É uma canção de David Bowie que ilustra o melhor momento do longa - a cena em que Frances corre pelas ruas ao som de Modern Love, que dá vontade de reprisar mil vezes de tão deliciosa que é.

Posso dizer seguramente que Frances Ha foi o meu filme de 2013.

[A vida, o universo e tudo mais] Leituras do ano - 2014

Confesso que não li muito em 2013. Estava tão compenetrada nas séries que assisto (e o número de séries que compõem a minha watchlist cresceu substancialmente), e nas minhas HQs de X-Men (decidi reler boa parte delas, incluindo as sagas A Era do Apocalipse e Dias de Um Futuro Esquecido - cujo filme baseado na mesma estreia neste ano), que acabei dando pouca atenção aos livros. A maior parte dos livros que li foram com o objetivo de escrever meu trabalho de conclusão da pós-graduação. Portanto, em 2014, decidi estabelecer algumas metas de leitura.

Vou começar com alguns livros do Neil Gaiman. Já fazia muitos anos que eu era fã do trabalho de Gaiman nos quadrinhos quando decidi, finalmente, ler um romance assinado por ele. Eu conhecia Gaiman de Sandman, Livros da Magia e de Batman: O Que Aconteceu ao Cavaleiro Das Trevas? No ano passado, li Belas Maldições que ele escreveu em parceria com Terry Pratchett e, logo após, Lugar Nenhum que se tornou um dos meus livros favoritos. O Oceano no Fim do Caminho eu ganhei de presente da minha amiga mais que querida, Ana Carol (ou divatonks, como ela é conhecida no incrível universo das redes sociais). Já li o primeiro volume de Coisas Frágeis, agora falta o segundo :)

Além de Gaiman, duas séries compõem minha lista de leituras de 2014: a trilogia Fronteiras do Universo e O Guia do Mochileiro das Galáxias. Tenho muita curiosidade em ler ambas, mas fui adiando em prol de outras sagas literárias. Não vou adiar mais.

Me identifiquei muito com a sinopse de Métrica - a menina que perde o pai e muda de casa com a mãe e o irmão. Algo simples, mas foi exatamente o que aconteceu comigo nos últimos anos.

A Ascenção do Governador, como o próprio nome não apenas sugere, como deixa bem claro, narra a origem e a trajetória do ótimo vilão da série The Walking Dead para chegar ao poder de  Woodybury, um refúgio de civis em meio ao apocalipse zumbi, que acabou por se tornar uma cidade com suas próprias leis e regras e comandada com mão de ferro pelo Governador. Interessante por apresentar o background de um dos personagens mais expressivos da série.

Fantasmas do Século XX eu ganhei inesperadamente em um sorteio do site Coolt Blog. É uma coletânea de contos de terror que angariou algumas boas críticas devido ao estilo da narrativa (sensorial, perturbadora e atraente, segundo o que foi dito sobre o livro). Eu não sou fã do pai do autor de Fantasmas, Joe Hill. Nem um pouco. O pai dele atende pelo nome Stephen King... Sim, eu sei, é uma blasfêmia não gostar de King. Em minha defesa, digo que todos os seus livros partem de premissas brilhantes, mas sofrem com um desenvolvimento aquém do esperado. Contudo, gosto muito de A Torre Negra. Vamos ver o que acho do trabalho de Hill. 

Segue a lista das leituras de 2014, com as respectivas fotos dos livros.

O Oceano no Fim do Caminho


Coisas Frágeis


Métrica

 


Fronteiras do Universo


O Guia do Mochileiro das Galáxias

 
A Ascensão do Governador


Fantasmas do Século XX



[Filme aos domingos] Edifício Master


Depois de um hiatus de três semanas, entre viagens e outros assuntos familiares que me forçaram a ficar longe do blog, cá estou novamente com um filme para se curtir neste domingo.

O último dia 2 de fevereiro foi triste para os amantes da sétima arte. Nos despedimos de um ator grandioso, Phillip Seymour Hoffman, que partiu aos 46 anos, deixando mulher, três filhos e uma carreira brilhante, permeada de personagens marcantes como Lancaster Dodd (O Mestre) e Truman Capote (Capote) que lhe valeu um Oscar de melhor ator em 2005. Assim como ocorreu com o talentoso Heath Ledger e o promissor Cory Monteith (só para citar casos mais recentes), sua morte foi consequência do uso abusivo de drogas.

Outro triste fim teve o cineasta e documentarista Eduardo Coutinho, de 81 anos, que dirigiu os brilhantes Jogo de Cena e Edifício Master. O filho de Coutinho, que possui problemas mentais e sofre de esquizofrenia, matou o próprio pai a facadas, tentou matar a mãe (que foi internada em estado grave no hospital) e, depois, tentou o suicídio. 

Perdas irreparáveis. Ambos, em seus melhores momentos na carreira. Não tem como não dizer que eles farão falta.

Edifício Master é um fascinante estudo de personagens da realidade cotidiana. Tendo como cenário um tradicional edifício localizado em Copacabana, no Rio de Janeiro, o documentário reúne uma série de entrevistas reveladoras e tocantes de seus residentes. São histórias que cativam a atenção do espectador. Coutinho registra tudo de forma crua, direta e sem floreios. E mesmo assim, possui um lirismo inconfundível, típico das obras do cineasta. O que impressiona é a diversidade de personagens que moram no edifício, bem como a diversidade de emoções que transmite ao espectador. A unidade em comum é o fato de residirem no mesmo local, mas suas origens e idades e experiências de vida são o que os distinguem uns dos outros. Na verdade, a maioria ali sequer se conhece e raramente se esbarram. Estão próximos e distantes uns dos outros. Tanto no que diz respeito ao espaço, quanto às suas essências e discursos em frente às câmeras.

Eu nunca morei em apartamento, mas sempre que frequentava os apartamentos de parentes ou amigos da família, se manifestava em mim aquela curiosidade a respeito das pessoas que dividiam o edifício com meus familiares ou conhecidos. Quem eram aqueles sujeitos que tomavam o mesmo elevador que eu? Ou que eu via saindo de seus apartamentos enquanto eu estava indo visitar quem quer que fosse? E, de suas janelas, lá no alto, eu espionava a vida lá embaixo, ou a vida dos moradores dos prédios da frente. Via o interior de suas casas, observava a decoração. Quando assisti Janela Indiscreta, de Hitchcock, compreendi a obsessão do personagem de James Stewart. Nutrimos natural e inevitavelmente essa estranha curiosidade pela vida dos outros. Suas características, manias, similaridades e distinções.

O documentário de Eduardo Coutinho sacia essa curiosidade aos nos apresentar pessoas com tantas nuances em suas personalidades, o que transforma a obra em um profundo e intimista estudo do ser humano, focando nas  diferentes pessoas que habitam o mesmo edifício, nas batalhas pessoais que elas travam todos os dias ao longo de suas singelas vidas. Além disso, explora o espaço em que se desenvolve a ação com um interesse genuíno, nos transmitindo seu fascínio pelo lugar em questão. O olhar do documentarista desperta no espectador também este entusiasmo em absorver o quanto puder das realidades fragmentadas e experiências narradas na tela, buscando a aproximação e, por que não, a identificação? Queremos conhecer mais e mais daquelas pessoas, indivíduos tidos como "marginalizados" pela sociedade, mesmo morando em um edifício situado em um bairro nobre. Coutinho sabia como prender a atenção do espectador com histórias simples, mas profundas. Ele retratava o humano com sensibilidade e sem distorções, nos fazendo lembrar do quanto as pessoas são complexas e possuem, cada uma, seu encantador universo particular.

[Filme aos domingos] Namorada de Aluguel


Nos anos 80 ainda sabiam fazer teen movies ou high school films com categoria. Não eram como Ela é o Cara e outras bombas atuais. Namorada de Aluguel, apesar da trama previsível e de todos os clichês (repetidos à exaustão em filmes do gênero), é bem simpático e divertido, apesar de datado. 

Estrelado por Patrick Dempsey - que, diga-se de passagem, está muito mais charmoso e interessante agora do que no auge dos seus 20 e tantos anos - a comédia narra as desventuras de Ronald Miller (constantemente chamado de Donald ao longo do filme), que trabalha, em seu tempo livre, cortando a grama de Cindy Mancini (a cheerleader e garota mais popular da escola) a fim de juntar dinheiro para comprar um telescópio que está em promoção. Porém, ele desiste de seu sonho de consumo ao ver que Cindy entrou em uma enrascada. A moça precisa de dinheiro para comprar uma roupa nova de camurça para sua mãe - que substitua o traje original que um de seus amigos acidentalmente manchou de vinho numa festa. Dessa forma, Ronald e Cindy entram em um acordo: ele a aluga, isto é, empresta a grana e, em troca, ela deve sair com ele durante um mês, pois assim ele irá se tornar popular. No começo, Ronald  faz tudo errado, mas, com o tempo, ele vai conquistando os amigos acéfalos de Cindy e adentrando o cruel mundo da popularidade adolescente. Ele não demora a se acostumar com a nova vida, porém, vai deixando para trás sua verdadeira identidade e se tornando tudo aquilo que ele e seus companheiros nerds costumavam detestar, passando de um oprimido a um opressor.

Um dos maiores trunfos do longa, é contar com sequencias antológicas. A primeira delas é o Ritual do Tamanduá Africano. Hilária. A segunda é o discurso no refeitório, no qual Ronald fala a respeito das mudanças ruins que a popularidade trouxe para sua vida, como o fato de destruir amizades em prol unicamente de estar do lado top ao invés do lado perdedor da lanchonete. E conclui dizendo "já é difícil a gente ser a gente mesmo". Emocionante.

É possível perceber referências à Namorada de Aluguel em comédias românticas teenagers dos anos 90, como Ela é Demais (nerds que se tornam populares e começam a frequentar um universo no qual se sentem deslocados em troca de um favor ou aposta) e Nunca Fui Beijada (a mesma história da fracassada que chega ao topo; e o discurso edificante seguido dos aplausos no clímax do filme). Mas muitos outros filmes beberam dessa fonte, de forma mais ou menos escancarada e mais ou menos bem-sucedida.

De qualquer forma, Namorada de Aluguel continua sendo um bom passatempo para os domingos ociosos. E a trilha sonora que inclui a clássica Can't Buy Me Love dos Beatles (que inclusive dá título ao filme, no original, em inglês) e Dancing With Myself do Billy Idol, é mais um item delicioso que faz este filme valer a pena.

[Listas] Filmes Favoritos de 2013

Como prometido, abaixo estão listados os meus filmes favoritos de 2013. Há filmes de 2012 integrando o meu top 10, como vocês irão perceber, porém, a lista compreende filmes que estrearam no Brasil no ano passado. Vi a maioria em cabines de imprensa, alguns em sessões de arte e outros em sessões convencionais. Então tem longas exibidos tanto no circuito comercial, quanto no alternativo. Clicando nos títulos dos filmes, vocês podem conferir minhas resenhas dos respectivos para o site que colaboro ou para o meu outro blog sobre cultura pop. Confesso que os filmes que ocupam a primeira e segunda posições me deixaram em uma encruzilhada, isto é, tive dificuldade em escolher qual dos dois ocuparia o primeiro lugar. Creio, no entanto, que fui justa - mais racional do que passional. No mais, posso dizer que esse foi um bom ano em se tratando de cinema. Não foi ótimo, espetacular. Mas ano que tem novos filmes de Paul Thomas Anderson, Guillermo Del Toro e Alfonso Cuarón sendo exibidos na salas de projeção, não pode ser considerado um ano ruim. Sem mais falatório, aí está:

(Thor - The Dark World, Alan Taylor, EUA, 2013)

(Pacific Rim, Guillermo Del Toro, EUA, 2013)

8 Azul É a Cor Mais Quente
(La Vie d'Adéle, Abdellatif Kechiche, França , 2013)

(Bling Ring, Sofia Coppola, EUA, 2013)

(Hunger Games - Catching Fire, Francis Lawrence, EUA, 2013)

(The Master, Paul Thomas Anderson, EUA, 2012)

(Django Unchained, Quentin Tarantino, EUA, 2012)
 
3 O Som Ao Redor
(Kleber Mendonça Filho, Brasil, 2012)

2 Frances Ha 
(Noah Baumbach, EUA, Brasil, 2012)

(Gravity, Alfonso Cuarón, EUA, Inglaterra, 2013)

Menções honrosas: O Lado Bom da Vida; Amor; A Hora Mais Escura; Indomável Sonhadora; Homem de Ferro 3.


Os piores: Os Miseráveis; Jack - O Caçador de Gigantes; Obsessão.

O que eu não vi (infelizmente), mas pretendo conferir assim que possível: O Grande Gatsby; Além da Escuridão - Star Trek; A Caça; Tatuagem.

[Filme aos domingos] Voo Noturno


Olá! Eis o primeiro post do ano e eu não poderia falar de outra coisa que não fosse filmes para começar bem 2014. Aliás, logo mais, postarei por aqui a minha singela listinha de filmes favoritos de 2013. Mas, por hoje, fiquem com Voo Noturno abrindo a seção filme aos domingos em 2014.

Quando se fala em Wes Craven, a primeira coisa que vem à mente é terror. E, por conta da trilogia Pânico (isto é, das duas sequências do filme original), o nome do cineasta deixou de inspirar confiança aos amantes do gênero (do qual ele sempre foi considerado um dos mestres). Depois de tropeçar com a já citada trilogia e o esquálido Amaldiçoados, o diretor apostou em um suspense mais psicológico que impacta pela tensão, não pela violência gráfica. O resultado é um thriller competente, cujo o maior trunfo é o elenco bem escolhido.

A trama acompanha uma jovem que está embarcando em um avião com destino à Miami onde reside e trabalha como gerente de um hotel. O passageiro da poltrona ao lado da sua, a princípio charmoso e gentil (e que ela conheceu durante o check-in), logo se revela um terrorista que ordena a ela que o ajude em um plano de assassinato ao Secretário de Segurança Nacional que costuma se hospedar no hotel em que a moça trabalha. Se ela se recusar, seu pai é quem será morto.

O duo principal, composto por Rachel McAdams e Cillian Murphy, é um dos grandes méritos do longa. Não são apenas dois atores competentes, como possuem carisma de sobra. A boa interação e dinâmica entre o casal é o que dá ritmo e movimento ao filme. Seus personagens passam longe de estereótipos bidimensionais comuns ao gênero. Muito pelo contrário, são bem construídos e apresentam uma evolução notável ao longo da trama. Ela é muito mais do que a mocinha assustada. Ele, mais do que um psicopata charmoso.

O cineasta acerta no nível de tensão e na sensação de pânico e claustrofobia que transmite ao espectador, ao explorar magistralmente o espaço restrito que a personagem de McAdams é obrigada  a dividir com um psicótico Murphy.

Wes Craven realiza aqui um ótimo e consistente trabalho. Voo Noturno, provoca uma aflição genuína e faz o espectador torcer com afinco pela protagonista. O roteiro é bem sacado, apesar de alguns lugares-comuns e do final dispensável. Mas nada que desmereça o andamento do bom filme.

Vale a sessão!