[Guilty Pleasures] Saved by the Bell

Cá estou novamente! Eu sempre prometo que vou aumentar a frequência de posts e nunca cumpro com a minha promessa. Tive muitas coisas importantes pra fazer nos últimos dias, inclusive arrumar a minha coleção de quadrinhos, o que me impediu de aparecer por aqui :) 

Pra começar, gostaria de agradecer pelas visitas! Muita gente passou por aqui por conta do texto que escrevi sobre a Copa do Mundo e eu sou muito grata a todos que leram, divulgaram, concordaram e discordaram de alguns ou vários pontos (como me disseram no facebook e twitter). 

E vamos para mais um guilty pleasure!


Conhecido no Brasil como Uma Galera do Barulho (título altamente criativo e com o selo "narrador da sessão da tarde" de aprovação), a série foi transmitida no Brasil pela sensacional emissora de Silvio Santos, o SBT, no início da década de 1990. Zack Morris, o protagonista, foi um dos meus heróis de infância. Pois é. 

Bem, creio que a série dispensa apresentações. Não exatamente por ser boa (hey, pra mim era excelente! Um marco da minha infância), mas porque basta dar uma olhada na abertura que você se dá conta de que se tratava essa sitcom. Era mais uma dessas séries protagonizadas por adolescentes que não gostam de estudar, aprontam todas na escola, com muitas risadas ao fundo, personagens sem grande profundidade e poucos conflitos. Era um seriado cômico (muito melhor do que iCarly e outras porcarias similares da Nickelodeon), com alguns raros momentos mais sérios. Na verdade, quando Saved by the Bell tentava ser séria, ela ficava um tanto constrangedora. Digitem Saved by the Bell I'm so excited no youtube para descobrirem do que estou falando. E, sim, a intérprete de Jessie Spano é aquela mesma que atuou em Showgirls do Paul Verhoeven (também conhecido como o filme que arruinou sua carreira), ilustre vencedor do Framboesa de Ouro.

Sim, marcou época!

[A vida, o universo e tudo mais] Na alegria e na tristeza, na vitória e na derrota


Meu pai costumava dizer que o humor brasileiro é incomparável. Ele era muito bem-humorado. E supersticioso quando o assunto era futebol. Viu o Brasil ser cinco vezes campeão em Copas do Mundo; em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Sempre vestindo sua jaqueta da sorte nas finais que o país disputou - a qual ele não tirava enquanto o capitão da seleção não erguesse a taça. Às vezes penso que o fato de nossa seleção nunca mais ter ganho o Mundial, tem a ver com a ausência de meu pai e sua jaqueta da sorte... Brincadeiras à parte, ele também viu o Brasil perder para o Uruguai  dentro de casa em 1950, e ser derrotado na final contra a França em 1998. Ao longo dos anos, viu o Brasil ser consagrado como o país do futebol; o país com o maior número de títulos em Copas do Mundo. E até imagino como ele receberia esse placar de 7x1; a derrota mais humilhante que sofremos na história do torneio. Primeiro, ele ficaria revoltado com a inércia dos jogadores em campo, criticaria a falta de atitude, de preparo, de concentração. Depois, como o bom brasileiro que era, certamente iria rir de cada piadinha feita nos meios de comunicação nacionais acerca do histórico vexame da Seleção Brasileira.

Ele estava certo quando dizia que o brasileiro é dono de um humor incomparável. Podemos rir dos outros, mas rimos muito mais de nós mesmos. Mas não é aquele humor autodepreciativo dos britânicos. A gente ri da nossa desgraça e dos nossos fracassos como uma forma de superação. Sabemos que nunca adiantou sentar e chorar. Então vemos o lado engraçado da coisa. Não nos colocamos para baixo. Apenas mantemos em mente que só seria trágico se não fosse cômico. E que sempre tem uma próxima vez. Primeiro rimos, depois tentamos de novo.


Chorar não vai nos trazer o hexa. Nem se revoltar, protestar queimando bandeiras ou culpar o governo pela derrota em campo. 

É muito mais divertido e saudável exorcizar nossos fantasmas desabafando do nosso jeito irreverente nas redes sociais. Obviamente, ignorando os conservadores do facebook que acham que tudo é culpa do PT e curtindo a liberdade que o twitter nos oferece, rindo com os companheiros virtuais e encarando tudo com bom humor. Rir é o melhor remédio. Espanta aquilo que nos assombra e também faz bem à saúde. E o melhor é que o povo das redes sociais não perde tempo. Vou repetir aqui o que eu disse no meu mural do FB: 

Orgulho de ser brasileira! Única nação que perde de 7x1 e faz as melhores piadas das redes sociais. Os alemães não pensariam em sacadas tão geniais quanto as nossas! #ChupaMundo

Tenho certeza que nenhum outro povo tem a agilidade e criatividade que o brasileiro tem na hora de tirar sarro de si mesmo. E isso que nos faz únicos. Nosso timing cômico, o improviso, as sacadas rápidas e inspiradas. Podem dizer o que quiserem de nós, mas somos  um povo espirituoso.


Afinal de contas, são tantos problemas, um leão por hora e um dragão por dia para matar, que não dá para levar as coisas tão a sério, nem se frustrar por qualquer motivo ou desistir diante de qualquer adversidade que apareça em nosso caminho. Temos mais é que levantar a cabeça e seguir em frente dando uma boa gargalhada.

Claro que não há como generalizar, pois sempre tem aqueles que partem para a ignorância, como eu já citei. Por exemplo, os que colocam a culpa na Dilma, que nem estava em campo. O governo tem muitos problemas. Tanto o atual quanto os anteriores. E ouso dizer que os anteriores tinham muito mais problemas do que o atual. E esta afirmação é baseada em fatos, estudo e pesquisa e não achismos ou preconceito. Mas o governo não tem nada a ver com Copa do Mundo. 

Quanto a queimar bandeiras como forma de protesto, não me surpreendo, mas não deixa de ser uma estupidez tamanha. Não me surpreendo porque a maioria das pessoas só enfeita suas casas e automóveis com bandeiras do Brasil em época de Copa, passando a impressão de que apenas são brasileiros quando a seleção está em campo e, claro, vence a partida. Porém, vexame maior do que perder de 7x1 para a Alemanha em uma semifinal do evento esportivo mais assistido do mundo, é queimar a bandeira do país quando esta nada tem a ver com futebol. A bandeira representa a nação, não a seleção. A bandeira é o símbolo do nosso país, não de uma empresa.


Entretanto, ano passado vi casos de falso patriotismo ainda piores e mais graves. Nunca vou esquecer das manifestações de junho de 2013 por uma série de fatores. E, infelizmente, um deles é o falso patriotismo. Eu não sabia se ria ou lamentava a participação de tantos que, antes da onda de protestos, só sabiam criticar o Brasil; aqueles que diziam que nada prestava neste país, que queriam mais é que afundasse mesmo, que não se importavam com a própria terra em que nasceram, tornando claro - e com muito orgulho - seu complexo de vira-lata. Muitos que nunca sequer estiveram fora do Brasil, ou que o máximo que fizeram foi visitar a Disney e, mesmo assim, achavam que tinham autoridade e conhecimento suficiente para dizer que qualquer outro país era melhor, e como era "muito melhor viver nos Estados Unidos", quando não viram quase nada além de Mickey, Pateta e fogos de artifício por lá. O discurso mudou repentinamente durante as manifestações. Por conta da atenção que o assunto recebeu da mídia e de toda a repercussão que gerou, estas mesmas pessoas que passaram a vida desancando o país em que nasceram, começaram a comprar cartolinas e fazer cartazes para protestar. O motivo? O amor à pátria e a preocupação que sentiam com o amado e idolatrado Brasil. Pior ainda, participaram dos protestos mais vazios, sem sentido e sem propósito. Aqueles contra a corrupção, organizados por fascistas pró-armamento, nos quais cantaram a plenos pulmões o Hino Nacional e se autoproclamaram antipartidaristas... Tamanha a alienação destas pessoas.

Mas nem me espanto - depois de passarem a vida afirmando e reafirmando na internet que eram americanizadas mesmo e se posicionando sempre contra o Brasil, participar das manifestações para estas pessoas nem tinha a ver com ser brasileiro com muito orgulho, com muito amor. Elas apenas queriam se sentir parte de algo, tentar entrar para a história, poderem dizer no futuro para seus filhos e netos "eu estava lá". Em suma, queriam apenas aparecer, se mostrar, fazer exposição de suas patéticas figuras.

Queimar bandeiras após uma partida de futebol constrangedora foi ridículo e estúpido, mas não é a única demonstração de falso patriotismo que podemos apontar.


De qualquer maneira, minha crença no ser humano se fortalece quando percebo que, nas redes sociais, especialmente no twitter (reduto de brasileiros donos de dedinhos inquietos, muitos chamados de ativistas de sofá), as pessoas procuram rir da derrota, mas se sentem envergonhadas mesmo de atitudes como esta, destes "protestos" vazios e sem sentido. E se expressam com muita dignidade, afirmando que são Brasil na vitória e na derrota. E que estarão lá torcendo por um terceiro lugar. Não há mais nada que possamos fazer, afinal.

Fazendo um balanço geral daquela terça-feira cinzenta, podemos resumi-la em uma palavra: decepção. E são inúmeros os motivos. Perdemos em casa, de goleada. Nunca sofremos uma derrota tão dura quanto esta. Mas poderia ser pior; poderíamos não ter feito aquele único gol quase no fim da partida e perdido de 0. O jogador alemão, Miroslav Klose, ultrapassou Ronaldo e agora é o maior artilheiro de todas as Copas, com 16 gols. Mas poderia ser pior; poderia ser um argentino, nossos eternos inimigos no futebol. E o recorde dos recordes: a seleção da Alemanha fez os cinco gols mais rápidos da história do Mundial - em apenas 29 minutos de partida.

...

Bem, estou encontrando dificuldades em pensar em algo que seja pior do que isso, mas vejam o lado cômico: se é pra ser derrotado e humilhado, que seja registrado no Guinness Book. E tem isso também:


Eram tantos gols, que se fez necessária a barrinha de rolagem. Preciso de uma imagem para ilustrar o que senti quando vi isso:


E, convenhamos, eles podiam ter dado um jeitinho de forma a não precisar da constrangedora barra de rolagem:


No terceiro gol da Alemanha, eu já estava chorando. De rir. Gargalhando mesmo, porque parecia brincadeira. 

Este pode ter sido o nosso maior vexame em Copas, mas não foi o primeiro e nem o único que passamos.

Como eu mencionei anteriormente, o Brasil já perdeu em casa, em 1950, quando sediamos o Mundial pela primeira vez. E na final, contra o Uruguai.

Em 1998, perdemos outra final. Desta vez, para os donos da casa, a França. A palavra "amarelou" ficou na boca do povo durante muitos e muitos meses. E que gosto amargo aquela derrota deixou. Um telejornal até fez um clipe dos momentos vexatórios com o tema musical de Titanic.

Na Copa de 2006, a vergonha pode não ter sido, assim, tão grande. Mas a nossa seleção, que havia conquistado o penta quatro anos antes, só chegou até às quartas de final e com Roberto Carlos arrumando a meia enquanto a bola rolava no gramado em direção ao gol. Esse fato rendeu piadas para o ano todo. E olha que, naquela época, twitter nem existia. Mas os programas humorísticos e chargistas de plantão não perderam tempo.


Em 2010, as redes sociais já bombavam. E a virada da Holanda contra o Brasil nas quartas de final foi um dos assuntos mais comentados. O Brasil estava ganhando de 1x0 no primeiro tempo. No segundo, os dois gols da Holanda nos eliminaram do Mundial.

E eu jurando que o Brasil podia fazer o mesmo com a Alemanha desta vez. Mas no terceiro gol, eu perdi totalmente as esperanças e fui para o twitter e facebook, rir e tirar um sarro com a galera.

Uma hora ou outra, mais dia menos dia, o trágico placar do jogo de terça deixará de ser o tópico principal, de ser meme do facebook, de ser piada em 140 caracteres no twitter. Não vai ser totalmente esquecido, mas teremos outros assuntos para comentar e zoar.


Eu só espero que tenhamos aprendido a lição. Afinal, se a nossa seleção chegou aonde chegou, foi por uma questão de sorte. E, para aqueles que não acreditam nesta palavra, tudo bem. Posso usar outra: vantagens. Tivemos várias. Com aquela seleção, eu acho impressionante termos conquistado um lugar entre os quatro primeiros. E não é questão de antipatriotismo, mas não merecíamos o título desta vez. Tínhamos dois bons jogadores: Neymar e Thiago Silva. O primeiro fazia gols, e também é habilidoso, fez boas jogadas individuais. Já o segundo é realmente um bom zagueiro e não há como contestar. David Luiz tem seus méritos também. E Júlio César fez o que podia. Se destacou quando defendeu dois pênaltis na partida contra o Chile nas oitavas de final. Porém, não pôde fazer muito no jogo contra a Alemanha, ficando sem muitas oportunidades de defesa. Tínhamos alguns talentos, é verdade. Mas era uma equipe que não funcionava em conjunto. Não havia entrosamento. O que víamos em campo era uma total ausência de sintonia entre os jogadores e nenhuma boa tática, nenhum preparo. Se eu passei a Copa inteira reclamando de erros bobos  da nossa seleção (como toques de bola que nem eu erraria), nessa semifinal, então... os jogadores brasileiros pareciam baratas tontas que, após o primeiro gol dos adversários, entraram em desespero, se desestruturaram de vez. Eles simplesmente não sabiam jogar juntos.

[E olha que entendo pouquíssimo de futebol. Meu interesse pelo esporte só desperta de quatro em quatro anos. E quando desperta, até porque, depois do penta, eu não liguei muito para as Copas de 2006 e 2010. E atribuo o meu escasso conhecimento ao meu pai. Este, sim, passava horas falando de futebol como um especialista. Mas posso dizer que tenho experiência em vexames esportivos. Minha dupla de vôlei, no colégio, ficou em último lugar e já joguei uma partida de tetris na qual eu não fiz nenhum ponto... Tetris conta como esporte? Whateva, mesmo assim nada se iguala ao 7x1].

Havia outras opções para se assistir na hora do jogo...

O país do futebol apresentou um futebol muito feio. E não acho que teria sido assim tão diferente se Thiago e Neymar estivessem em campo. Provavelmente perderíamos de 4x2. E, convenhamos, uma seleção não pode se resumir a apenas dois jogadores. Todos ali são profissionais e tinham o dever de jogar bem. Mas não jogaram. Ficou claro o quão dependente este time era dos dois citados. E esse foi o grande erro.

Também não vejo motivo para crucificá-los em praça pública. Os meninos desapontaram em todos as partidas, mas, no fundo, parece que estavam cientes disso. Até onde vi, os piás eram todos simpáticos, humildes e gente boa. E o fato de perderem feio não me fez mudar meu pensamento sobre eles. Especialmente o David Luiz que é um cara legal e que eu acho que ainda tem muito a mostrar.


No entanto, isto não significa que não podemos rir. Não acho que demonstrar senso de humor diante desta tragédia esportiva é desrespeitar os jogadores. Não acho que tirar sarro seja sinônimo de antipatriotismo. Bora superar, galera. E nada melhor do que superar com bom humor.

Esta pode não ter sido a Copa das Copas. Pelo menos não para o povo brasileiro. Mas foi a Copa das zoeras. Como meu pai dizia, do "incomparável humor brasileiro". Rimos muito, nos divertimos bastante. E agradeço, sem sombra de dúvidas, ao pessoal que faz parte das minhas redes sociais. Vocês trouxeram frescor, opiniões respeitosas e um cômico show de criatividade para minhas timelines. Por essas e outras que essa Copa foi tão legal ;)

Os Simpsons previram...
E sempre tem a próxima, uma nova chance. A verdade é que aprendemos muito com cada fracasso. As derrotas são necessárias. Se apenas vencêssemos sempre, nos julgaríamos por cima da carne seca e nos acomodaríamos. E é na acomodação que reside o perigo. Vencer sempre nos torna arrogantes, mesquinhos e seres humanos repelentes com um pavoroso complexo de superioridade. Pelo contrário, as derrotas nos fazem perceber nossos erros, o que e como podemos melhorar.

Quem sabe, da próxima, para reparar o supracitado vexame desta Copa, não nos tornamos, enfim, hexacampeões? Não foi o que aconteceu depois da derrota para a França em 1998? Não conquistamos o penta em 2002? Quem sabe?


Não há razões para entristecer. O Brasil é o único país que participou de todas as 20 edições da Copas do Mundo realizadas até agora. Também é o maior vencedor do torneio, com cinco títulos. Isso, ninguém tira de nós.

E aposto que enquanto eu escrevia este post, a Alemanha fez mais 7 gols.


Olha lá, quem acha que perder
É ser menor na vida
Olha lá, quem sempre quer vitória
E perde a glória de chorar
Eu que já não quero mais ser um vencedor
Levo a vida devagar pra não faltar amor

*Salut*

Fonte das imagens: twitter / youpix

[Filme aos domingos] Rashomon


O corpo de um homem encontrado em uma floresta dá origem a quatro diferentes versões de uma mesma história. Ambientado no Japão do século XI, temos acesso, então, aos fatos narrados pelo bandido que estuprou uma mulher na frente de seu marido, pela mulher violada, pelo marido assassinado e por um homem que assistiu a cena e testemunhou no julgamento do caso. A montagem se mostra o recurso essencial do filme, muito bem utilizada ao contemplar múltiplos pontos de vista. A forma como o cineasta Akira Kurosawa brinca com a edição dos fatos, introduzindo um recurso inovador na época, o flashback – e que viria a se tornar tão tradicional que atualmente é enfadonho e muitas vezes usado de maneira equivocada – surpreende o espectador. As quebras cronológicas de uma narrativa não linear, associadas à trilha sonora, tornam o longa ágil e envolvente. O plot, baseado no conto Yabu no Naka de Ryūnosuke Akutagawa, já é instigante por si só, mas a maneira utilizada por Kurosawa, em parceria com o diretor de fotografia Kazuo Miyagawa, para contar a história, fazendo excelente uso de recursos não convencionais para a época (o filme é de 1950), tornam o longa ainda mais delicioso de se acompanhar. Essencialmente Rashomon versa a respeito dos valores corrompidos da humanidade. A mentira, a desonestidade, o egoísmo, a hipocrisia e, por fim, o alcance da redenção em uma demonstração genuína de altruísmo. De um primor incomparável e ineditismo absoluto, Rashomon é uma obra-prima fundamental na coleção de qualquer cinéfilo que se preze.  

[Guilty Pleasures] My So-Called Life

Só para não deixar o mês de junho sem postagens no blog, decidi inaugurar uma nova seção que não toma muito do meu tempo para elaborar o artigo e tudo mais...

Começarei este texto da forma mais clichê possível, mas... 

Todo mundo tem um guilty pleasure, ou prazer culposo. É aquilo que você gosta, mas tem vergonha de admitir e, por isso, curte sozinho, longe de todos, trancado em seu quarto.

Na real, essa definição é uma grande mentira. Atualmente é cool admitir seu guilty pleasure especialmente nas redes sociais.

Eu admito os meus e recebo dezenas de curtidas.


Decidi inaugurar a seção com uma série que não é dos meus maiores guilty pleasures, mas como eu estava pesquisando sobre ela outro dia, passei horas vendo vídeos e lendo artigos sobre (o que culminou em um sonho meu estrelado por Jared Leto, no qual éramos presos por consumirmos substâncias ilícitas!) resolvi começar por ela.

My So-Called Life estreou em 1994 na ABC e ficou conhecida por aqui como Minha Vida de Cão quando exibida no canal pago Multishow e como Meus Quinze Anos ao ser transmitida pelo SBT. Devido à baixa audiência, foi cancelada depois de apenas 19 episódios. Dizem por aí que ela enfrentava a concorrência da já decadente Beverly Hills, 90210 (a nossa famosa Barrados no Baile) e outras séries adolescentes que proliferavam na TV americana.

O que eu curtia na série, além do fato de contar com a ótima Claire Danes (um pouco antes de Romeu + Julieta e muito antes de Temple Grandin e Homeland) e Jared Leto (em sua fase pré-30 Seconds to Mars e quando ainda nem sonhava em ter um Oscar em sua estante), era o fato de ser menos "glam" do que BH 90210. Os personagens não eram reduzidos a rótulos e os conflitos vividos pelos adolescentes de MSCL eram mais genuínos, menos histriônicos do que os de Dylan, Brenda, Kelly, Brandon e outros. Eles não eram tão bonitinhos e ricos quanto os Barrados no Baile (sério, esse título é a coisa mais bizarra ever). E tinha um tom cômico agradável também, além de tramas mais sinceras. Em uma época em que os padrões estabelecidos por BH 90210 vigoravam na maior parte dos produtos do gênero, My So-Called Life optava por fugir de estereótipos e chavões narrativos, com enredos bem elaborados e figuras cativantes, retratando os dramas da adolescência da forma mais realista possível e com um jeito único de contar a história.

Contudo, mesmo com tantos atributos, foi uma série inexpressiva e que passou despercebida pela maioria... Após o cancelamento, no entanto, se tornou objeto de culto e ganhou uma seleta fanbase.

Aonde estavam estes fãs quando a série era exibida? Mas que coisa! É por culpa destas pessoas, os fãs tardios, que Firefly e Pushing Daisies foram canceladas...

Well...

Era um bom passatempo para o domingo à tarde, especialmente para quem curtia assistir ao SBT em pleno ano de 1999, comendo pipoca junto com as irmãs mais velhas. Não tínhamos nada de mais interessante pra fazer mesmo.

Mas eis uma boa pedida. Se séries adolescentes (ainda que com mais profundidade do que a maioria) não forem de seu agrado, pelo menos vale para conferir Danes e Leto em inicio de carreira.

Eis a abertura:



E eu era a única team Brian, acho. Aliás, minhas irmãs e eu. Os fãs eram todos team Jordan, o personagem do Leto.

[Filme aos domingos] Caché


Para quem está habituado ao cinema de Michael Haneke, sabe que ele é fiel ao estilo que o consagrou. É um cineasta com uma identidade bem definida. Longos planos estáticos, cortes abruptos, câmeras subjetivas, ausência de trilha sonora, narrativa seca e crua são elementos recorrentes em suas obras. Em Caché, não é diferente. Todos estes itens corroboram a sensação de aflição que permeia o filme e acompanha personagens e espectadores durante toda a trama. E assim como em outros títulos que compõem sua filmografia, Caché também retrata personagens da classe média em situações de desespero e paranóia, à beira do abismo. Inicialmente temos acesso à rotina frívola de um prestigiado apresentador de televisão ao lado de sua família, que começa a receber telefonemas anônimos e desenhos perturbadores, além de fitas de vídeo cujo conteúdo são fatos corriqueiros de sua vida. Tudo de um caráter doentio. Seu perseguidor, parece acompanhá-lo em cada um dos espaços que ele frequenta. A trivialidade cede lugar a um fato trágico após o confronto com o passado e uma realidade inesperada. O protagonista se sente coagido por ter culpa e por carregá-la durante anos, tentando enterrá-la de alguma forma em seu íntimo. Haneke utiliza o choque e a violência como mecanismos que orientam seus personagens e conduzem sua trama produzindo um impacto gráfico que contrasta com a constante sutileza e elegância de sua câmera. Também explora espaços fechados tirando bom proveito de seus cenários, atentando para a riqueza dos detalhes e transmitindo ao espectador uma sensação inevitável de claustrofobia. Como de praxe, o diretor nos faz voyeurs, espiando a interação entre os personagens de longe, sempre à distância. Em dado momento, nos fazendo sentir intrusos e um tanto constrangidos ao adentrar um universo de segredos tão aterradores. Outro dos achados deste longa, é mostrar diferentes ângulos de uma mesma sequência, não só apresentando uma outra perspectiva da cena, como tornando mais claro o seu objetivo com este filme. O final inconclusivo pode soar frustrante para aqueles que não compreendem aonde Haneke quis chegar. Muito mais do que apontar culpados, o cineasta quis mostrar a consequência da causa, a ação da reação. O que ocorre quando somos confrontados com o passado e o sentimento de culpa. Quais são os nossos limites e como podemos perder o controle sobre nossas próprias atitudes e mesmo sobre nossas próprias vidas. 

[A vida, o universo e tudo mais] A arte do spoiler

Hitchcock não via graça ou emoção em whodunit 
Alfred Hitchcock não gostava de whodunit - um recurso narrativo cuja tradução livre para o português pode ser "quem matou?" - consiste em fazer com que o público tente desvendar quem é o assassino da obra, tendo como base pistas espalhadas no decorrer da trama. O mestre do suspense achava que o público se envolvia mais se compactuasse da identidade do assassino. Que o espectador deveria ser onisciente, saber de todos os fatos, estar informado de toda a situação, que nada lhes deveria ser omitido. Segundo o próprio: "whodunit suscita uma curiosidade destituída de emoção; ora, as emoções são um ingrediente necessário ao suspense".

Longe de mim querer discordar de Hitchcock (quem sou eu?), mas creio que ler um livro ou ver um filme não tendo conhecimento da identidade do assassino é uma experiência tão enriquecedora em termos de entretenimento quanto consumir obras de ficção informado sobre a situação em sua totalidade, isto é, sabendo de todos os pormenores da trama, inclusive quem é o assassino.

Os suspeitos de Bryan Singer: Qual deles é Keyser Söze?
Obviamente serão duas experiências diferentes. Tomemos como exemplo o filme Os Suspeitos de Bryan Singer. Na primeira vez em que você o assiste, a revelação de quem é Keyser Söze só chega nos derradeiros momentos. Durante toda a sessão, a preocupação foi tentar desvendar o enigma, atentando para os detalhes. Se for assisti-lo uma segunda vez, de forma alguma seus méritos terão se reduzido. O filme continua ótimo. A diferença é que agora já sabemos quem é  Keyser Söze, então fica mais fácil se concentrar neste personagem, reparar em nuances que tínhamos deixado passar da primeira vez, atentar para sua sagacidade,  nos impressionarmos com sua frieza e calculismo e percebermos o quão bem construído o personagem é.  As coisas farão mais sentido da segunda vez. Isto porque estaremos mais concentrados em estudar o personagem e suas ações, ao invés de procurar pistas que nos levem a descobrir quem é Keyser Söze.

Talvez o exemplo não seja, assim, tão feliz, porque para espectador atento, metade deste filme basta para já se ter uma forte suspeita de quem é Söze. É um filme que funciona melhor da primeira vez por conta do escopo do roteiro e da estrutura narrativa, mas uma segunda, como eu disse, serve para examinarmos melhor o personagem - brilhante, diga-se de passagem - que é o que move a trama.

E eu vou aqui lhes revelar quem é Söze:

Alerta de spoiler! Fechem os olhos, cubram os ouvidos, fujam!
É o Kevin Spacey, pronto! E se você não sabia disso, o que está fazendo da vida que ainda não viu Os Suspeitos? Garanto que é bem melhor do que ler este blog.

Acabei de dar um spoiler...

Bem, spoiler é o assunto de hoje. De acordo com Henry Jenkins, naquele livro maravilhoso Cultura da Convergência (que todos os aficionados em cultura pop DEVERIAM ler):
A palavra spoiling começa lá atrás - ou pelo menos até onde se consegue ir para trás - na história da Internet. O spoiling surgiu do desencontro entre as temporalidades e geografias dos velhos e novos meios de comunicação. Para começar, as pessoas da Costa Leste viam uma série de TV três horas antes das pessoas da Costa Oeste. Algumas séries eram exibidas em noites diferentes, em mercados diferentes. Séries americanas eram exibidas nos EUA seis meses ou mais antes de estrear no mercado internacional . Enquanto as pessoas de diferentes lugares não conversavam entre si, cada uma delas tinha uma experiência em primeira mão. Mas, uma vez que os fãs passaram a se encontrar on-line, essas diferenças de fuso horário se avultaram. Alguém da Costa Leste entrava on-line e postava tudo sobre um episódio. E alguém na Califórnia ficava irritado porque o episódio tinha sido "estragado" ("spoiled"). Então, quem postava uma mensagem começava escrevendo a palavra "spoiler" na linha do assunto, para que as pessoas pudessem decidir se iriam lê-la ou não.
Segundo Amer (deste blog sensacional que todos deveriam conhecer):
A molecada de hoje reclama quando UM PÔSTER revela um personagem novo para a nova temporada de uma série, tudo é spoiler pros badernistas de hoje. Nenhum desses putos ia sobreviver nos anos 1990!
Concordo plenamente. Basta analisarmos os comentários no Orangotag, uma rede social que permite que marquemos os episódios que já assistimos de uma série para termos controle do que vemos e não nos perdermos no meio de tantos seriados que acompanhamos ao mesmo tempo.

Sempre que vou lá, fico impressionada com a falta de conhecimento das pessoas sobre o que é spoiler.

Spoiler caracteriza revelações surpreendentes do enredo, fatos drásticos que podem vir a modificar de maneira significativa o nosso entendimento sobre a narrativa, ou o rumo do episódio ou da trama. Revelar quem é o assassino de um "whodunit" é um spoiler terrível para quem não quer saber deste fato, para quem pretende desvendar sozinho, para quem quer se impactar com a surpresa. Dizer quais personagens morrem e como morrem em episódios futuros é um puta spoiler. Abrir a matraca para contar o rumo infeliz que os personagens vão tomar no decorrer de uma série ou de um livro é um spoiler tremendo.

Batman me representa.
Robin representa os engraçadinhos do facebook
Eu, por exemplo, fugi o máximo que pude das redes sociais no dia da series finale de Breaking Bad ou da regeneração do Eleventh Doctor para o Twelfth em Doctor Who. Isto porque eu, que possuo capacidade mental suficiente para ligar um computador, sei que redes sociais são redutos de spoilers. Especialmente o twitter e o tumblr. Eu havia decidido começar Breaking Bad apenas quando a série chegasse ao fim. Desta forma, escapei de spoilers como Michael Bay escapa do bom senso. Todo mundo sabe que o ambíguo protagonista, Walter White, morre no final de BrBa. Mas "como ele morre" é a grande questão. Eu não queria saber se ele ia morrer pelas mãos da polícia, ou de outros traficantes, ou se ia se suicidar (havia essa possibilidade), ou se morreria em decorrência do câncer. Se alguém ousasse me contar, poderia se declarar uma pessoa tão morta quanto Walter White. Por vezes eu fazia uma publicação a respeito da série no meu facebook, e surgiam sabe Deus de que buraco os inconvenientes comentar coisas como "essa série é foda, mas o melhor é o final quando ele morre, você precisa ver, ele morre depois que..." e eu parava de ler por aí e deletava o comentário.

Eu tenho um login e uma senha. Estou no meu direito de apagar comentários das minhas publicações no facebook.

O que eu gostaria de saber é por que essas pessoas acham que lançar spoiler do final de uma série para quem ainda está na metade, é tão legal? Elas estão bancando as engraçadinhas? (tem um no meu fb que realmente acha que está sendo engraçado e que é a coisa mais legal do mundo ser estraga-prazeres). Tem outra que acha que estará sendo mais inteligente se soltar spoiler nos comentários dos meus posts, que isso faz dela uma pessoa mais culta porque ela soube dos fatos da série antes de mim.

Mas é claro que você sabe, meu amor! Você assistiu a série antes de mim. Não precisa spoilar para provar isso.

Coleção de spoilers!
Eu acho que nos posts dos outros e nos groups do FB, deve-se respeitar o desejo e o pedido de quem não quer spoiler. É uma falta de educação tremenda você soltar uma revelação importante da trama, quando é sabido que a maior parte das pessoas não gosta e não quer. Que acha que isto é tão sem graça quanto revelar um truque de mágica. Perde o encanto, perde a magia. Em um grupo de séries, você deve estar ciente de que a maior parte dos membros não quer saber de revelações chocantes da trama sem antes assistir. Não custa nada avisar com uma tag e recorrer aos pontinhos
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Pronto. Resolvido. Lê quem quer. 

Mas é muito chato quando você está no meio de uma discussão sobre a série, comentando um episódio, e vem alguém e diz o que vai acontecer nos próximos quando você não perguntou nada. 

Não importa se a série é derivada de livros ou HQ's. Eu não sou obrigada a correr atrás dos materiais originais antes de ver as séries. De Game of Thrones, eu procuro spoilers. Não li os livros, ainda pretendo, mas sempre recorro a fóruns ou amigos que leram para saber qual é o destino dos personagens na obra literária, de forma que eu não sofra muito quando eles morrerem, já que costumo me apegar demais. Mas de The Walking Dead, eu não quero saber. Eu gosto da surpresa. Eu gosto da tensão de não saber quem é a próxima vítima.

Poderia ser tanto um spoiler de Game of Thrones quanto
de The Walking Dead 
Respeito no mural dos outros. Respeito nos groups.

É diferente, por exemplo, de quando as pessoas postam spoilers em seus respectivos twitters e murais do facebook. Aí não tem como reclamar. Ninguém tem controle sobre o que os outros postam em suas redes e eles podem fazer o que bem entenderem. O máximo que se pode fazer para fugir disso é dar unfollow.

Eu já fiz publicações engraçadinhas no facebook dizendo, por exemplo, que estava passando na Sessão da Tarde um determinado filme, cujo(a) protagonista morre no final. Mas estamos falando de filmes que todo mundo assistiu ou, se não, já conhece a história de trás para frente de tanto ouvir os outros falarem. Spoilers inofensivos.

E, sendo bem radical, acho que quem não quer correr o risco iminente de ler spoilers, não deveria ter tumblr e nem twitter. Ou pelo menos, aprender a utilizar recursos de filtragem para evitar esses inconvenientes. Afinal, não existe lei que proíba as pessoas de postarem spoilers. E não há maneira de você mandar mention para cada um dos usuários de rede sociais, pedindo encarecidamente que não soltem spoiler na timeline. É impossível.

Precisando urgentemente que alguém solte um spoiler
desses da minha vida
Fui alvo de indiretas por conta deste assunto duas vezes pela mesma pessoa no twitter. Da primeira vez, eu estava conversando com uma amiga acerca de uma série. E óbvio que não tinha como não dar spoilers no meio deste colóquio. Mas estávamos falando entre nós, por mention, no NOSSO twitter. Veio um ser que sofre de síndrome de velha ranzinza aguda precoce (visto que ela nem chegou aos 40 ainda), nos criticar por meio de indiretas dizendo que não adiantava ela assistir à série se já tinha spoiler de graça no twitter. Que tal se você parasse de dar atenção às conversas dos outros, querida? Se bem me lembro essa era a mesma que dizia que não lia a timeline porque achava desagradável pessoas que "conversavam" por mention como se twitter fosse msn. O dia da crítica foi, então, uma exceção à regra?

Noutra ocasião, eu sequer sabia que a criatura estava on e comentei um spoiler revoltante no MEU twitter. Isto porque quase ninguém via a série, a maioria não se interessava muito. E todos os que eu conhecia que a acompanhavam, já haviam assistido ao episódio. 

Veio a velha ranzinza com rompantes adolescentes me ameaçar por indiretas novamente. A pessoa estava quieta, sem usar o twitter há dias. COMO EU PODERIA ADIVINHAR QUE ELA ESTAVA ON NO PRECISO MOMENTO EM QUE EU DEI UM SPOILER DE UMA SÉRIE QUE QUASE NINGUÉM ASSISTIA OU SE IMPORTAVA?

Né, Cersei?
Tem sempre esses fulaninhos no twitter, os típicos que acham que todos devem pedir "permissão" a eles antes de tweetar qualquer coisa. Sim, eu acho que devemos ter bom senso. Não sou a favor dessa história de "o twitter/facebook é meu, eu posto o que quiser", pois isso vira justificativa para baderna, para gente sem educação fazer comentários desrespeitosos, ofensivos e preconceituosos sem nenhuma consciência de que está agindo errado. Pior, acham que estão certos porque "é MEU espaço, eu falo o que eu quiser". Não é bem assim. Você posta o que quiser, mas respeite o espaço dos outros. Qualquer dia desses eu falo melhor sobre isto, até porque pretendo escrever um texto sobre o comportamento de usuários de redes sociais. Mas, de fato, é por isso que o twitter vem decaindo. A gente segue as pessoas por respeito, mas não tem nenhum interesse no que elas tweetam. Não é como o facebook, que você pode simplesmente tirar as pessoas do seu feed sem precisar exclui-las de sua lista de amigos. E, sinceramente, porque a gente usa twitter mesmo? Pra ficar falando que vai tomar banho, jantar, trocar de roupa, ver um filme, enfim... dar spoilers desinteressantes de nossas vidas desinteressantes...

A questão é, não quer ler spoiler? Então não tenha twitter. Ou tenha, mas use o global filter. Melhor invenção da história das redes sociais. E o melhor conselho que eu posso dar para os anti-spoilers: NÃO TENHAM TUMBLR! 

Nunca vou entender quem odeia spoiler e tem tumblr. Sinceramente!

É como se eu, hater assumida do Ashton Kutcher, começasse a comprar os DVDs dos filmes dele. Não tem cabimento. 

Mas o tumblr também conta com recursos de filtragem, então não reclamem!

Eu falei do orangotag mais acima, e como é incrível que lá tudo é spoiler. Se alguém aparece comentando que no começo de um episódio de uma determinada série, o personagem X deu "oi" pra personagem Y, já vem a galera marcar o comentário como spoiler, dar lição de moral e iniciar a Terceira Guerra Mundial.

Pode ser um spoiler. Mas também pode ser só alguém dizendo que o Tyrion
espirrou nesse episódio de Game of Thrones
Vamos deixar uma coisa bem clara: você não querer saber NADA a respeito de um episódio, nem quem deu "boa tarde" para quem, não classifica automaticamente os fatos triviais da trama como spoilers, ainda mais quando estão sendo comentados em uma rede social na qual um dos objetivos é justamente conversar sobre séries. E se você não quer saber NADA sobre o episódio, ASSISTA antes de entrar no site. Quem está sendo tolo (olha que estou procurando ser gentil) é você mesmo que sabe que pode se deparar com um spoiler (ou mesmo com um fato trivial que você não quer saber) sendo comentado ou debatido, e comete a bobagem de ler a discussão de outros espectadores por lá.

De novo: spoiler designa revelações impactantes sobre o enredo. Fatos que podem alterar todo o curso da trama. Coisas chocantes cujo objetivo é exatamente o espectador assistir para descobrir.

Um personagem dar "bom dia" para outro, ou almoçar com ele, ou tropeçar na rua, ou aparecer com roupa amarela, ou com tênis Nike, ou acessar o google durante a trama NÃO é spoiler.

Como uma imagem diz mais do que mil palavras, eu aderi ao conceito de que um gif deve valer mais do que mil imagens. Portanto, darei exemplos em gifs do que é spoiler e o que não é, uma vez que somos parte de uma cultura extremamente visual, cujo grafismo torna tudo mais fácil de assimilar, vamos lá:

Isso é spoiler:



Isso não é:



Entendidos?

*Salut!*


[A vida, o universo e tudo mais] O beijo

Eu esperei passar todo o frisson em torno do polêmico beijo gay da novela Amor à Vida para finalmente fazer este post...

... Mentira, eu sou preguiçosa e fico protelando as coisas. Já era pra eu ter escrito este artigo há semanas, mas eu sou assim e creio que não vou mudar.

Mas como esse beijo não vai soar anacrônico tão cedo, vamos lá!

A cena



O ator Mateus Solano, que protagonizou o momento já considerado histórico da televisão brasileira, chamou de "beijo Tarcísio Meira", que é aquele de boca fechada, porém longo. Não houve nada de arrebatador, além do que o beijo representava. Foi uma cena simples, esteticamente bonita, inocente até, uma demonstração pura de afeto. 

Reações (ou "fecha todas as internet")

A geração twitter vibrou. Não só o público homossexual, como a galera mente aberta, desprovida de preconceitos, acostumada com os beijos entre pessoas do mesmo sexo nas séries americanas e que lê fanfics slash há quase uma década. O gayjo bay representou o respeito à diversidade sexual, além de que a televisão brasileira parou de ignorar o fato de que gays se beijam na boca sim, e que não devem ser reduzidos a simples e bizarros estereótipos que tanto nos acostumamos a ver em lixo televisivos como Zorra Total - no qual o homossexual é alvo de piadas maldosas e de péssimo gosto - que só servem para fomentar ainda mais o preconceito existente e a falta de respeito a seres humanos que se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Os gays deixaram de ser figuras caricatas e foram mostrados de maneira humana. E o mais importante, se beijando. Afinal, gays tem contato físico, Rede Globo. Quem já viu esse vídeo sabe o motivo de eu estar falando isso.

Outra coisa: para além de fatores políticos e sociais, está o fato de que as pessoas torceram genuinamente pelo casal. Eles tinham química, combinavam, eram o par mais bonitinho da novela. Bem, com uma sonsa como protagonista e um galã que não sabe atuar como seu par romântico, não era difícil que as atenções fossem todas desviadas para outro casal, não é mesmo? Diante da dinâmica e interação entre os personagens de Mateus Solano e Thiago Fragoso, não tinha como não torcer por eles e pela sua felicidade como casal.

Mas o pessoal do facebook...


O facebook te dá a liberdade de se expressar em muito mais do que 140 ectares. Talvez pela falta de compreensão de como manusear uma ferramenta como o twitter (ainda considerado confuso por essas pessoas), os retrógrados estão todos espalhados pelo facebook, com seus discursos enfadonhos, ultrapassados e, obviamente, preconceituosos. Algo que eles chamam de "conservador", apenas pra enfeitar o pavão. Não vou mentir que no twitter não tenha pessoas dessa estirpe. Mas é mais comum vê-las no facebook. Pelos trending topics (os assuntos mais comentados do microblog), percebemos que a maioria era a favor do beijo, subiram tag e ela foi tweetada à exaustão. Mas no facebook, era tanta gente contrária. se opondo, dizendo que se sentiu ofendido e desrespeitado. Sem perceber, no entanto, que com seu discurso opressivo e de ataque aos homossexuais, quem estava agindo de maneira desrespeitosa eram eles mesmos.

Como são contraditórios esses "conservadores".

A justificativa de que uma cena de beijo entre dois homens "destruiria as famílias brasileiras" é tão absurda que não merece nem uma linha de comentários...

Mas vou fazê-los do mesmo jeito.

Após o beijo da novela, não vi nenhuma família se desfazer. Todas as que eu conheço permanecem intactas. Não ouvi nenhum caso de pai de família que abandonou mulher e filhos por conta de um beijo entre dois homens em uma novela. Nem mesmo que algum filho abandonou os pais e irmãos por conta da tal cena. E duvido que algum homem que fez o pedido de casamento semanas antes à namorada, tenha voltado atrás em sua decisão e dito a ela: "depois do beijo gay na novela, decidi que não quero me casar com você, querida. Pode dizer a todos para apagarem a data do nosso casamento de suas agendas. Agora eu to a fim de pegar aquele seu primo sarado".

Conhece algum caso do tipo? É, eu também não.


Outra coisa ilógica e usada exaustivamente como justificativa pelos conservadores é a tal da influência. Creio que foi no programa Encontro com Fátima Bernardes que ouvi jornalista dizer que crianças não deveriam ver esse tipo de coisa na TV, na rua ou em qualquer outro lugar, porque eles não tem discernimento e isso pode afetar e influenciar suas "escolhas". Nem preciso dizer que ela usou o famigerado "opção sexual".

No mesmo programa, ouvi um comentário interessante e engraçado, "falam muito em tendência a ser gay. Gente, não é Fashion Week".

Não.É.Fashion.Week.

Melhor comentário ever!

Engraçado que crescemos com o modelo familiar tradicional representado nas novelas por um pai trabalhador, uma mãe dona de casa e seus filhinhos perfeitos que, quando crescem, viram machos reprodutores que pegam todas as meninas da novela em altas cenas picantes e impróprias para o horário. E esse clichê da teledramaturgia jamais impediu que muitas pessoas que cresceram assistindo isso, descobrissem sua homossexualidade.

Não é uma obra de teledramaturgia que vai definir sua sexualidade. Se as pessoas fossem viver em função de telenovelas, basear suas vidas nelas, agora estariam todas morando no Leblon, mudando seus nomes para Helena e ouvindo bossa nova no iPod enquanto caminham pelo calçadão em plena tarde ensolarada de quarta-feira.

A teledramaturgia não reflete a nossa realidade. Muito pelo contrário. A realidade representada neste tipo de ficção está muito distante da nossa. Dificilmente o público consegue se identificar com os personagens, pois são extremamente limitados, estereotipados, bidimensionais, que passam por situações muito distintas do que as que vivemos em nosso cotidiano. Ninguém na vida real é tão oco e pouco complexo. De modo que é impossível condicionar nossas vidas de acordo com telenovelas.

Falando bem a verdade, todo mundo sabe disso. As pessoas apenas não assumem. Usam o argumento infundado de que "beijo gay" não pode, pois confunde a cabeça das crianças que assistem  e pode influenciá-las a fazer o mesmo e optarem por ser gays (como se fosse realmente uma escolha) unicamente como um meio de tentar justificar seu preconceito de alguma maneira que, na cabeça dessas pessoas, é perfeitamente cabível.

Só que não é.

Violência pode. Uma cena de afeto e respeito entre duas pessoas do mesmo sexo, não!

Esse caso de Amor à Vida foi particularmente engraçado. Vimos, ao longo da novela, um mesmo homem trair sua mulher um sem-número de vezes; uma psicopata tentar matar o amante de várias maneiras possíveis; uma mulher ser vítima de bullying por estar acima do peso; criança recém-nascida sendo jogada em caçamba; cenas de chantagem, humilhação, golpes, facadas, ...


Mas tudo isso passou despercebido pelos olhos do público. De forma alguma essas cenas poderiam incitar a violência no público telespectador.

E eu concordo. Não é por conta de filmes, telenovelas, seriados, videogames que as pessoas desenvolvem seu lado psicopata. Acho que esta é uma justificativa banal, que só existe mesmo para eximir o real culpado de qualquer culpa e jogá-la toda na cultura de entretenimento. Assim, se eu por acaso achasse de sair cortando as cabeças das pessoas com espadas por aí, a culpa não seria minha, do meu desequilíbrio mental, e sim do Quentin Tarantino! Prendam ele agora!!!

Eu, por exemplo, costumava descarregar a raiva que sentia de um professor em um jogo de computador, no qual eu fazia as vezes de um franco-atirador e saia baleando homens de terno e gravata que saiam de carrões de último tipo. Como fazia bem. 

Mas nunca encomendei armas e cheguei na faculdade disposta a assassinar meu professor.

Abro um parênteses aqui para dizer que, sim, acho que obras de entretenimento são capazes de passar mensagens que, nós, leitores ou espectadores, levamos conosco pelo resto da vida. Que contribuem sim para a nossa aprendizagem especialmente quando somos crianças ou adolescentes. E que existem mensagens perigosas sendo transmitidas por inúmeras obras. Mas não creio de forma alguma que uma cena de filme, série ou novela, ou uma passagem de um livro, possa moldar totalmente a nossa personalidade. Nós podemos até imitar ações de nossos personagens favoritos quando somos pequenos. Contudo, não vamos crescer acreditando que somos aquele determinado personagem. Uma hora ou outra, mais cedo ou mais tarde, vamos descobrir quem realmente somos e não influenciados por um produto da cultura pop. Se estamos projetando nossas vidas em alguma ficção, em alguma fábula, então deve haver algum problema conosco. Muitas vezes o que falta mesmo é viver um pouco mais a realidade. Em outros casos, uma ajuda psicológica cai bem (falo, pois já vi casos problemáticos em fandoms que precisavam de uma coisa ou outra). Mas não há quem possa me convencer de que uma obra vai orientar sua sexualidade ou aflorar no público um instinto violento.

Portanto, essa questão de obras de entretenimento escapista exercerem influência sobre nossas personalidades, nosso comportamento, de modo tão determinante, eu dispenso.

Voltando ao assunto, houve uma overdose de cenas violentas e personagens mau-caráter na trama de Walcyr Carrasco que passaram completamente despercebidos pela maioria dos "conservadores" ao longo de toda a sua exibição. No entanto, bastou chegar o último capítulo da novela e acontecer o tão aguardado beijo entre dois homens e pronto! Tudo o que foi ignorado ao longo de quase um ano em que a trama esteve no ar, veio à tona.


Daí você faz uma postagem no facebook dizendo que adorou o beijo gay e o que acontece? Surgem pessoas vindas de todos os cantos e buracos, que já nem falavam mais com você na rede social, e começam a vomitar seus discursos vazios, falando que beijo gay é o cume da depravação na TV, acostumada a alienar pessoas com cenas de violência e sexo. Ou, pior, o foco do post é o beijo, e as pessoas fazem comentários dizendo que a novela foi um péssimo exemplo para o público pelas cenas de violência, degradação da sociedade, chantagem, traição e... beijo gay. Este último com grifo e em caixa alta. Como se fosse a pior coisa da novela.

Engraçado que daí lembraram de criticar outros aspectos, como as cenas violentas? Algo que não fizeram durante toda a exibição da trama. Pior: colocam beijo entre dois homens no mesmo patamar de crimes como assassinato, roubo e agressão física e moral. A cereja no topo do bolo foi me acusaram de estar fazendo apologia ao crime.

Sim, porque eu dizer que gostei do beijo gay, automaticamente me faz ser conivente e apoiadora do assassinato, do adultério, da extorsão.

Sim, porque se eu apoio uma cena que simboliza a degradação da sociedade, a falta de moral, o desrespeito à família brasileira, então eu também apoio corrupção, sequestro e violência.

Faz todo o sentido do mundo.

Não faz?

Cê tem certeza que o nome é homofobia?



Fobia vem do grego e significa medo. Mas as reações extremas e negativas e de repúdio ao beijo gay, me provaram mais uma vez que o negócio não é medo. É raiva, é ódio.

Nunca vou ser capaz de compreender como as mesmas pessoas que fazem discursos inflamados de que está faltando amor entre os seres humanos, paz e Cristo no coração de todos, são os mesmos que estão manifestando opiniões de ódio e intolerância aos gays. 

Mas comassim? 

Pregam o amor, falam excessivamente de Deus misericordioso e são os mesmos que desejam que os gays morram no fogo do inferno como castigo de Deus Todo Poderoso por suas práticas pederastas e depravadas? 

Mas que Deus tirânico  é esse, e que só ama os filhos hétero? Que amor é esse? Amor seletivo, destinado apenas aos heterossexuais, pois gays não merecem ser amados? 

Falta coerência a essas pessoas. Gays são tão ou mais humanos do que quem busca o paraíso desejando o inferno para os "filhos depravados", os donos da verdade que creem ser porta-vozes de Deus, que não tem o mínimo entendimento do que são os princípios básicos do respeito ao espaço e liberdade do outro. 

Mas até compreendo de certa forma o nome "homofobia". Afinal, as pessoas não querem beijo gay na novela por conta da tal influência. Homossexualidade é contagiosa, pega em um simples toque ou se você dividir o mesmo banheiro com um gay. Beijos gays na novela vão provocar uma revolução homossexual, é o início da ditadura da viadagem, quando vão encorajar todos a liberarem a bicha que existe dentro de nós e os meios de comunicação vão nos hipnotizar e fazer com que todo mundo vire gay. O mundo será gay! O medo destas pessoas é serem contaminadas com o vírus da homossexualidade. 

Nossa! E eu achando que elas eram seguras de sua heterossexualidade... Quer dizer que elas tem células gays que podem começar a se alastrar por todo seu organismo se um beijo gay de repente acontecer na novela?

Parei!

Só vou dizer mais uma coisa para os homofóbicos de plantão: Você não precisa gostar dos gays e, tampouco, dividir sua cama com eles. Basta respeitá-los. Não é tão difícil, é? Se os conservadores querem tanto a paz e felicidade, comecem a conviver em paz com seus semelhantes independente de raça, credo ou sexualidade.  Se soubermos respeitar a todos e prezar pela convivência pacífica, estaremos caminhando rumo a um mundo melhor. 

Ensinar nossos filhos de que o que importa não é a sexualidade da pessoa e, sim, o seu caráter, é a verdadeira revolução.


O beijo gay não deveria ser chamado de beijo gay. Deveria ser visto apenas como um beijo.

É novidade no horário nobre da Rede Globo. Nunca antes na história da teledramaturgia da emissora houve uma cena dessas. É comum que, para distingui-la dos beijos entre casais héteros que existem deste a primeira novela da televisão brasileira, exibida em 1951, classifiquem-no como beijo gay. Mas espero que, com o passar do tempo, quando essa cena se tornará uma constante e não venha a chocar mais ninguém, nem cause mais comoção nacional e frisson nas redes sociais, se torne tão comum que seja visto apenas o beijo entre este e aquele personagem. Simples assim.


É claro que eu participei do surto no twitter e no facebook, mas foi um momento de conquista e realização para tantos amigos queridos que vem lutando há anos para que a mídia (especialmente uma emissora tão popular e assistida) os veja como seres humanos e não como aliens, anormais, aberrações, ou sua sexualidade como patologia, ou pior, motivo para zombaria em plena rede nacional. Sim, isso me comoveu. Ver um casal homossexual ser tratado com dignidade, como seres humanos. Isso foi maravilhoso. Apesar de toda a falta de coerência e das verdadeiras crateras no texto de Amor à Vida, dou esse mérito a Walcyr Carrasco que soube construir, aos poucos, esse casal que caiu nas graças do público e, claro, aos atores carismáticos que levaram a sério e defenderam seus personagens com paixão e dignidade. 

E vocês sabiam que tem fanfics e fanvideos deles por aí? Pois é.


Não perca, em um próximo post perto de você, um texto sobre a evolução do tema "homossexualidade na teledramaturgia brasileira". Mas não, eu não sei quando eu vou postar. Todavia, já estou trabalhando nele ;)

Até lá!

*Salut*