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terça-feira, 15 de abril de 2014

[A vida, o universo e tudo mais] O beijo

Eu esperei passar todo o frisson em torno do polêmico beijo gay da novela Amor à Vida para finalmente fazer este post...

... Mentira, eu sou preguiçosa e fico protelando as coisas. Já era pra eu ter escrito este artigo há semanas, mas eu sou assim e creio que não vou mudar.

Mas como esse beijo não vai soar anacrônico tão cedo, vamos lá!

A cena



O ator Mateus Solano, que protagonizou o momento já considerado histórico da televisão brasileira, chamou de "beijo Tarcísio Meira", que é aquele de boca fechada, porém longo. Não houve nada de arrebatador, além do que o beijo representava. Foi uma cena simples, esteticamente bonita, inocente até, uma demonstração pura de afeto. 

Reações (ou "fecha todas as internet")

A geração twitter vibrou. Não só o público homossexual, como a galera mente aberta, desprovida de preconceitos, acostumada com os beijos entre pessoas do mesmo sexo nas séries americanas e que lê fanfics slash há quase uma década. O gayjo bay representou o respeito à diversidade sexual, além de que a televisão brasileira parou de ignorar o fato de que gays se beijam na boca sim, e que não devem ser reduzidos a simples e bizarros estereótipos que tanto nos acostumamos a ver em lixo televisivos como Zorra Total - no qual o homossexual é alvo de piadas maldosas e de péssimo gosto - que só servem para fomentar ainda mais o preconceito existente e a falta de respeito a seres humanos que se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Os gays deixaram de ser figuras caricatas e foram mostrados de maneira humana. E o mais importante, se beijando. Afinal, gays tem contato físico, Rede Globo. Quem já viu esse vídeo sabe o motivo de eu estar falando isso.

Outra coisa: para além de fatores políticos e sociais, está o fato de que as pessoas torceram genuinamente pelo casal. Eles tinham química, combinavam, eram o par mais bonitinho da novela. Bem, com uma sonsa como protagonista e um galã que não sabe atuar como seu par romântico, não era difícil que as atenções fossem todas desviadas para outro casal, não é mesmo? Diante da dinâmica e interação entre os personagens de Mateus Solano e Thiago Fragoso, não tinha como não torcer por eles e pela sua felicidade como casal.

Mas o pessoal do facebook...


O facebook te dá a liberdade de se expressar em muito mais do que 140 ectares. Talvez pela falta de compreensão de como manusear uma ferramenta como o twitter (ainda considerado confuso por essas pessoas), os retrógrados estão todos espalhados pelo facebook, com seus discursos enfadonhos, ultrapassados e, obviamente, preconceituosos. Algo que eles chamam de "conservador", apenas pra enfeitar o pavão. Não vou mentir que no twitter não tenha pessoas dessa estirpe. Mas é mais comum vê-las no facebook. Pelos trending topics (os assuntos mais comentados do microblog), percebemos que a maioria era a favor do beijo, subiram tag e ela foi tweetada à exaustão. Mas no facebook, era tanta gente contrária. se opondo, dizendo que se sentiu ofendido e desrespeitado. Sem perceber, no entanto, que com seu discurso opressivo e de ataque aos homossexuais, quem estava agindo de maneira desrespeitosa eram eles mesmos.

Como são contraditórios esses "conservadores".

A justificativa de que uma cena de beijo entre dois homens "destruiria as famílias brasileiras" é tão absurda que não merece nem uma linha de comentários...

Mas vou fazê-los do mesmo jeito.

Após o beijo da novela, não vi nenhuma família se desfazer. Todas as que eu conheço permanecem intactas. Não ouvi nenhum caso de pai de família que abandonou mulher e filhos por conta de um beijo entre dois homens em uma novela. Nem mesmo que algum filho abandonou os pais e irmãos por conta da tal cena. E duvido que algum homem que fez o pedido de casamento semanas antes à namorada, tenha voltado atrás em sua decisão e dito a ela: "depois do beijo gay na novela, decidi que não quero me casar com você, querida. Pode dizer a todos para apagarem a data do nosso casamento de suas agendas. Agora eu to a fim de pegar aquele seu primo sarado".

Conhece algum caso do tipo? É, eu também não.


Outra coisa ilógica e usada exaustivamente como justificativa pelos conservadores é a tal da influência. Creio que foi no programa Encontro com Fátima Bernardes que ouvi jornalista dizer que crianças não deveriam ver esse tipo de coisa na TV, na rua ou em qualquer outro lugar, porque eles não tem discernimento e isso pode afetar e influenciar suas "escolhas". Nem preciso dizer que ela usou o famigerado "opção sexual".

No mesmo programa, ouvi um comentário interessante e engraçado, "falam muito em tendência a ser gay. Gente, não é Fashion Week".

Não.É.Fashion.Week.

Melhor comentário ever!

Engraçado que crescemos com o modelo familiar tradicional representado nas novelas por um pai trabalhador, uma mãe dona de casa e seus filhinhos perfeitos que, quando crescem, viram machos reprodutores que pegam todas as meninas da novela em altas cenas picantes e impróprias para o horário. E esse clichê da teledramaturgia jamais impediu que muitas pessoas que cresceram assistindo isso, descobrissem sua homossexualidade.

Não é uma obra de teledramaturgia que vai definir sua sexualidade. Se as pessoas fossem viver em função de telenovelas, basear suas vidas nelas, agora estariam todas morando no Leblon, mudando seus nomes para Helena e ouvindo bossa nova no iPod enquanto caminham pelo calçadão em plena tarde ensolarada de quarta-feira.

A teledramaturgia não reflete a nossa realidade. Muito pelo contrário. A realidade representada neste tipo de ficção está muito distante da nossa. Dificilmente o público consegue se identificar com os personagens, pois são extremamente limitados, estereotipados, bidimensionais, que passam por situações muito distintas do que as que vivemos em nosso cotidiano. Ninguém na vida real é tão oco e pouco complexo. De modo que é impossível condicionar nossas vidas de acordo com telenovelas.

Falando bem a verdade, todo mundo sabe disso. As pessoas apenas não assumem. Usam o argumento infundado de que "beijo gay" não pode, pois confunde a cabeça das crianças que assistem  e pode influenciá-las a fazer o mesmo e optarem por ser gays (como se fosse realmente uma escolha) unicamente como um meio de tentar justificar seu preconceito de alguma maneira que, na cabeça dessas pessoas, é perfeitamente cabível.

Só que não é.

Violência pode. Uma cena de afeto e respeito entre duas pessoas do mesmo sexo, não!

Esse caso de Amor à Vida foi particularmente engraçado. Vimos, ao longo da novela, um mesmo homem trair sua mulher um sem-número de vezes; uma psicopata tentar matar o amante de várias maneiras possíveis; uma mulher ser vítima de bullying por estar acima do peso; criança recém-nascida sendo jogada em caçamba; cenas de chantagem, humilhação, golpes, facadas, ...


Mas tudo isso passou despercebido pelos olhos do público. De forma alguma essas cenas poderiam incitar a violência no público telespectador.

E eu concordo. Não é por conta de filmes, telenovelas, seriados, videogames que as pessoas desenvolvem seu lado psicopata. Acho que esta é uma justificativa banal, que só existe mesmo para eximir o real culpado de qualquer culpa e jogá-la toda na cultura de entretenimento. Assim, se eu por acaso achasse de sair cortando as cabeças das pessoas com espadas por aí, a culpa não seria minha, do meu desequilíbrio mental, e sim do Quentin Tarantino! Prendam ele agora!!!

Eu, por exemplo, costumava descarregar a raiva que sentia de um professor em um jogo de computador, no qual eu fazia as vezes de um franco-atirador e saia baleando homens de terno e gravata que saiam de carrões de último tipo. Como fazia bem. 

Mas nunca encomendei armas e cheguei na faculdade disposta a assassinar meu professor.

Abro um parênteses aqui para dizer que, sim, acho que obras de entretenimento são capazes de passar mensagens que, nós, leitores ou espectadores, levamos conosco pelo resto da vida. Que contribuem sim para a nossa aprendizagem especialmente quando somos crianças ou adolescentes. E que existem mensagens perigosas sendo transmitidas por inúmeras obras. Mas não creio de forma alguma que uma cena de filme, série ou novela, ou uma passagem de um livro, possa moldar totalmente a nossa personalidade. Nós podemos até imitar ações de nossos personagens favoritos quando somos pequenos. Contudo, não vamos crescer acreditando que somos aquele determinado personagem. Uma hora ou outra, mais cedo ou mais tarde, vamos descobrir quem realmente somos e não influenciados por um produto da cultura pop. Se estamos projetando nossas vidas em alguma ficção, em alguma fábula, então deve haver algum problema conosco. Muitas vezes o que falta mesmo é viver um pouco mais a realidade. Em outros casos, uma ajuda psicológica cai bem (falo, pois já vi casos problemáticos em fandoms que precisavam de uma coisa ou outra). Mas não há quem possa me convencer de que uma obra vai orientar sua sexualidade ou aflorar no público um instinto violento.

Portanto, essa questão de obras de entretenimento escapista exercerem influência sobre nossas personalidades, nosso comportamento, de modo tão determinante, eu dispenso.

Voltando ao assunto, houve uma overdose de cenas violentas e personagens mau-caráter na trama de Walcyr Carrasco que passaram completamente despercebidos pela maioria dos "conservadores" ao longo de toda a sua exibição. No entanto, bastou chegar o último capítulo da novela e acontecer o tão aguardado beijo entre dois homens e pronto! Tudo o que foi ignorado ao longo de quase um ano em que a trama esteve no ar, veio à tona.


Daí você faz uma postagem no facebook dizendo que adorou o beijo gay e o que acontece? Surgem pessoas vindas de todos os cantos e buracos, que já nem falavam mais com você na rede social, e começam a vomitar seus discursos vazios, falando que beijo gay é o cume da depravação na TV, acostumada a alienar pessoas com cenas de violência e sexo. Ou, pior, o foco do post é o beijo, e as pessoas fazem comentários dizendo que a novela foi um péssimo exemplo para o público pelas cenas de violência, degradação da sociedade, chantagem, traição e... beijo gay. Este último com grifo e em caixa alta. Como se fosse a pior coisa da novela.

Engraçado que daí lembraram de criticar outros aspectos, como as cenas violentas? Algo que não fizeram durante toda a exibição da trama. Pior: colocam beijo entre dois homens no mesmo patamar de crimes como assassinato, roubo e agressão física e moral. A cereja no topo do bolo foi me acusaram de estar fazendo apologia ao crime.

Sim, porque eu dizer que gostei do beijo gay, automaticamente me faz ser conivente e apoiadora do assassinato, do adultério, da extorsão.

Sim, porque se eu apoio uma cena que simboliza a degradação da sociedade, a falta de moral, o desrespeito à família brasileira, então eu também apoio corrupção, sequestro e violência.

Faz todo o sentido do mundo.

Não faz?

Cê tem certeza que o nome é homofobia?



Fobia vem do grego e significa medo. Mas as reações extremas e negativas e de repúdio ao beijo gay, me provaram mais uma vez que o negócio não é medo. É raiva, é ódio.

Nunca vou ser capaz de compreender como as mesmas pessoas que fazem discursos inflamados de que está faltando amor entre os seres humanos, paz e Cristo no coração de todos, são os mesmos que estão manifestando opiniões de ódio e intolerância aos gays. 

Mas comassim? 

Pregam o amor, falam excessivamente de Deus misericordioso e são os mesmos que desejam que os gays morram no fogo do inferno como castigo de Deus Todo Poderoso por suas práticas pederastas e depravadas? 

Mas que Deus tirânico  é esse, e que só ama os filhos hétero? Que amor é esse? Amor seletivo, destinado apenas aos heterossexuais, pois gays não merecem ser amados? 

Falta coerência a essas pessoas. Gays são tão ou mais humanos do que quem busca o paraíso desejando o inferno para os "filhos depravados", os donos da verdade que creem ser porta-vozes de Deus, que não tem o mínimo entendimento do que são os princípios básicos do respeito ao espaço e liberdade do outro. 

Mas até compreendo de certa forma o nome "homofobia". Afinal, as pessoas não querem beijo gay na novela por conta da tal influência. Homossexualidade é contagiosa, pega em um simples toque ou se você dividir o mesmo banheiro com um gay. Beijos gays na novela vão provocar uma revolução homossexual, é o início da ditadura da viadagem, quando vão encorajar todos a liberarem a bicha que existe dentro de nós e os meios de comunicação vão nos hipnotizar e fazer com que todo mundo vire gay. O mundo será gay! O medo destas pessoas é serem contaminadas com o vírus da homossexualidade. 

Nossa! E eu achando que elas eram seguras de sua heterossexualidade... Quer dizer que elas tem células gays que podem começar a se alastrar por todo seu organismo se um beijo gay de repente acontecer na novela?

Parei!

Só vou dizer mais uma coisa para os homofóbicos de plantão: Você não precisa gostar dos gays e, tampouco, dividir sua cama com eles. Basta respeitá-los. Não é tão difícil, é? Se os conservadores querem tanto a paz e felicidade, comecem a conviver em paz com seus semelhantes independente de raça, credo ou sexualidade.  Se soubermos respeitar a todos e prezar pela convivência pacífica, estaremos caminhando rumo a um mundo melhor. 

Ensinar nossos filhos de que o que importa não é a sexualidade da pessoa e, sim, o seu caráter, é a verdadeira revolução.


O beijo gay não deveria ser chamado de beijo gay. Deveria ser visto apenas como um beijo.

É novidade no horário nobre da Rede Globo. Nunca antes na história da teledramaturgia da emissora houve uma cena dessas. É comum que, para distingui-la dos beijos entre casais héteros que existem deste a primeira novela da televisão brasileira, exibida em 1951, classifiquem-no como beijo gay. Mas espero que, com o passar do tempo, quando essa cena se tornará uma constante e não venha a chocar mais ninguém, nem cause mais comoção nacional e frisson nas redes sociais, se torne tão comum que seja visto apenas o beijo entre este e aquele personagem. Simples assim.


É claro que eu participei do surto no twitter e no facebook, mas foi um momento de conquista e realização para tantos amigos queridos que vem lutando há anos para que a mídia (especialmente uma emissora tão popular e assistida) os veja como seres humanos e não como aliens, anormais, aberrações, ou sua sexualidade como patologia, ou pior, motivo para zombaria em plena rede nacional. Sim, isso me comoveu. Ver um casal homossexual ser tratado com dignidade, como seres humanos. Isso foi maravilhoso. Apesar de toda a falta de coerência e das verdadeiras crateras no texto de Amor à Vida, dou esse mérito a Walcyr Carrasco que soube construir, aos poucos, esse casal que caiu nas graças do público e, claro, aos atores carismáticos que levaram a sério e defenderam seus personagens com paixão e dignidade. 

E vocês sabiam que tem fanfics e fanvideos deles por aí? Pois é.


Não perca, em um próximo post perto de você, um texto sobre a evolução do tema "homossexualidade na teledramaturgia brasileira". Mas não, eu não sei quando eu vou postar. Todavia, já estou trabalhando nele ;)

Até lá!

*Salut*

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