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domingo, 29 de maio de 2016

[A vida, o universo e tudo mais] O corpo é meu, a escolha é minha


2004, eu estava no segundo ano do ensino médio e tinha um professor de história babaca, machista, racista, homofóbico, disfarçado de esquerda socialista e ex-militante político (uma baboseira que eu nunca acreditei de fato). Jamais aprendi uma linha sequer de história com ele, isto porque o fulano preferia dedicar os cinquenta minutos da aula a contar causos de sua vida (muitos duvidosos) e a vomitar um discurso preconceituoso. Denegrir a mulher era com ele mesmo. Não vou repetir as idiotices que ele dizia, porque já estou poluindo este espaço o suficiente ao fazer esse breve resumo de quem foi meu professor de história, mas tem um episódio que eu gostaria de relatar aqui. 

Houve uma vez em que ele se manifestou fervorosamente (até demais) contra o aborto, usando o infame argumento: 

- Na hora de fazer foi bom. Quando abriu as pernas, sabia o que estava fazendo, por que não se cuidou? Daí vai lá, a assassina, e mata o bebê. 

Indignada, esperei que soasse a campainha sinalizando o fim da aula e, respeitosamente, o chamei até minha carteira. Meio desconfiado, pois sabia que eu era uma das muitas alunas que o odiava (mas uma das poucas que o odiava abertamente), ele veio até mim. Fiz uma pergunta a ele, já sabendo a resposta, mas a intenção era outra: 

- O aborto é legalizado no Brasil em ocorrência de estupro? 

Ele me encarou com um olhar assassino, maquiavélico, como se quisesse me trucidar e, com veemência, sacudiu a cabeça e proferiu um sonoro NÃO! 

Saiu da sala às pressas, soltando fogo pelas ventas e deixou que entrasse a outra professora que daria aula na sequência. 

Esse episódio jamais saiu da minha cabeça. Eu consegui o que queria: deixá-lo contrariado, despertar nele uma reação de fúria. 

Isto porque, ao se manifestar contra o aborto, ele demonstrou todo o seu machismo, dizendo que se a mulher sabia o que estava fazendo durante o ato sexual, deveria também saber das consequências disso. Mas não tocou em nenhum momento em um ponto que quase ninguém realmente toca: o homem também aborta. Quando vira as costas para a namorada ou esposa quando esta anuncia a gravidez. É um aborto não no sentido literal da palavra, mas o homem também está se eximindo de seu dever como pai, abandonando a mulher e renegando o próprio filho. É um aborto indireto, é fingir que não teve participação na hora de conceber. Afinal, se o homem não entra com o esperma, de nada adianta a mulher entrar com o útero, não é mesmo? 

Desculpem o meu francês na última frase, mas é isso. 

Assim, quando eu toquei na questão do estupro para ele, ficou ainda mais difícil ele defender e eu aceitar seu ponto de vista. Em uma situação de violência sexual, a mulher não tem culpa de nada. Não foi consensual, ela simplesmente não queria fazer. Ela foi forçada. 

E então? Ela estará sendo uma assassina de bebês como ele apregoou se abortar o fruto de um estupro? Algo não planejado, feito contra a sua vontade, um ato pelo qual ela não teve nenhuma responsabilidade? O que na hora de fazer não foi bom? Que ela não abriu as pernas, mas as teve abertas forçadamente? 

E o estuprador, querido professor de história, sabia o que estava fazendo quando estuprou uma mulher e sabia que poderia haver consequências como, por exemplo, ela engravidar, não é mesmo? Ah, mas ele não tem culpa de nada, não tem responsabilidade nessa história, certo? Ele não sabia, nem parou pra pensar nisso quando violentou a garota. O intuito era estuprar, o que aconteceria depois não era do interesse e nem da alçada dele, a mulher que arcasse sozinha com as consequências de um ato violento. 

Outra coisa: se o preservativo estoura? Se o anticoncepcional falha? A mulher estava se cuidando. Como fica a questão?


É muito fácil criminalizar e vilanizar a mulher por um aborto, desconhecendo os pormenores do evento. Existem situações e situações. E o que pessoas como esse meu professor de história ignoram são as circunstâncias de cada caso. Mas independente disso, particularmente, eu acho equivocado um homem se manifestar contra o aborto porque ele nunca realmente vai entender essa situação. Ele jamais vai passar por isso. E não é só a mulher quem deve se cuidar, o homem também carrega metade da responsabilidade de uma gravidez. 

Durante muito tempo, aliás, até poucos minutos antes de escrever este texto, eu dizia que sim, sou a favor do aborto, afinal, o corpo é da mulher e ela decide o que fazer com ele. Ninguém mais tem direito ou autorização para dizer o que a mulher deve ou não fazer com seu corpo. Muito menos julgar, ainda mais quando se é homem e jamais irá viver uma situação nem ao menos similar. Mas que eu, Andrizy, não faria um aborto. Que essa seria a minha escolha e todas tem o direito de escolher o que fazer com seus corpos e suas vidas. 

Mas, como eu mesma salientei dois parágrafos acima, existem diferentes circunstâncias, diferentes episódios e cheguei a conclusão de que sim, eu faria um aborto em caso de violência sexual. Sim, eu faria um aborto se minhas condições financeiras não fossem suficientes para sustentar uma criança. Sim, eu faria um aborto por questões de saúde. 

O corpo é meu, a escolha é minha. 

E ninguém tem o direito de dar pitacos e julgar as minhas escolhas. 

*Salut*

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