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quinta-feira, 12 de maio de 2016

[Escritora de quinta] Boas maneiras em situações embaraçosas

"Vamos sair?"
"Não dá, tenho compromisso. Vários nadas pra fazer nesse fds"
É quase automático. Se um velho conhecido bate palma em frente ao seu portão, você o convida para entrar, sentar-se no sofá, tomar um café e prosear durante toda a tarde. Quando chega a hora de a visita ir embora, você não hesita em proferir os clássicos é cedo! e fica um pouco mais, o papo tá bom! Ainda que internamente, você esteja dando pulinhos de alegria e festejando. Não porque a visita seja desagradável... Bem, às vezes é. Mas você comemora secretamente mais pelo fato de que tudo o que quer em um resto de sábado preguiçoso, é colocar seu pijama favorito e ver um filme ou maratonar um seriado na Netflix. É claro que você não vai dizer isso para as visitas, ainda que elas suspeitem que o "fica mais um pouco" esteja impregnado de falsidade, essas frases e boas maneiras foram criadas com o objetivo de transmitir conforto tanto para o visitante quanto para o visitado, para dar aquela sensação de que a visita é bem-vinda e o anfitrião parecer a mais educada, gentil e simpática das criaturas.

É infalível, não é? Assim como o bom dia para os vizinhos quando você está saindo para trabalhar, o bom dia para o porteiro quando você chega no local de trabalho, o se não for incômodo se o colega de trabalho te encontra no meio do caminho e lhe oferece uma carona (e você salta para o carro feliz de não ter que fazer o restante do trajeto a pé), o oi, quanto tempo! quando você acidentalmente cruza o caminho de um conhecido na rua (cujo nome nem lembra mais e nem mesmo faz questão), o hoje não, fica pra próxima quando um ambulante tenta lhe vender algum produto (o hoje não é nunca, o fica pra próxima é não vai ter próxima, e os ambulantes sabem disso, mas soa mais gentil quando você diz em termos educados, não com sinceridade).

Não se sabe quem inventou essas frases simpáticas e as boas maneiras para com o próximo. Sua origem remonta aos tempos do Êpa e elas estão enraizadas em nós de modo que é automático proferi-las e executá-las. Não é nem mesmo necessário um manual. Aprendemos e nos acostumamos com elas desde muito pequenos, vendo o exemplo dos mais velhos. Não importa seu nível de instrução ou classe social. Todos tem essas frases e ações em mente diante das situações expostas acima. 

Contudo, os velhos sábios que criaram esses métodos gentis de tratar os conhecidos, esqueceram de criar boas maneiras para lidarmos ou mesmo contornarmos situações desconfortáveis, quando não embaraçosas.

Como se portar diante daquele conhecido que você já cumprimentou na ida, mas reencontra na volta? Você diz um oi de novo? e tenta sair de engraçadinho? Dá um sorrisinho meia-boca, sem graça? Dá uma piscadela? 

Na dúvida, eu recorro ao sorriso mesmo. 

O que fazer quando você quer evitar o encontro porque está com pressa e sabe que a pessoa vai querer te parar para conversar e já não dá mais tempo de atravessar a rua e fingir que não a viu? Você tenta ser o mais educado dos seres, dizendo que está com pressa e dispensa a pessoa... Não adianta, não funciona, não importa o mel e a gentileza que tenta imprimir em sua voz, não vai soar educado, vai parecer exatamente que você não está a fim de falar com o indivíduo, de que quer dispensá-la sem cerimônias, sendo que na maior parte das vezes, você só está atrasado mesmo e qualquer segundo a mais de conversa é fatal (leia-se: você vai perder o ônibus ou se atrasar para bater o ponto na firma e ouvir poucas e boas do chefe chato depois).

Como lidar com aquela típica situação quando te convidam com a maior das empolgações para sair de casa para uma festa, um piquenique, um almoço, um passeio no parque e tudo o que você mais deseja é ficar em casa, na frente do computador, sem fazer nada? Você não quer mentir dizendo que tem outro compromisso. Já está cansado de saber que a velha desculpa de que não está passando bem não rola. Como dizer que você prefere fazer vários nadas ao invés de sair com seus amigos? Ser sincero vai magoá-los na melhor das hipóteses. Ouvir as críticas dos amigos que dizem que você chegou a um estágio patológico e preocupante de seu comportamento antissocial é o pior. 

O problema é que você é daqueles que gosta de planejar. Prefere convites feitos com antecedência, muita antecedência, para já deixar avisado antecipadamente para o seu cérebro e espírito que no próximo fim de semana é dia de sair, logo, não vai dar pra ficar em casa colocando as séries em dia. Convites de última hora te forçam a rever e alterar toda a programação a qual seu corpo constantemente fatigado já havia tomado como certa para aquela dia...

É, pessoal das frases educadas e boas maneiras, vocês pensaram em quase tudo. Menos em como lidar com as situações embaraçosas. Aliás, se houvessem pensado em maneiras de lidar com estas situações que expus acima, elas não seriam desconfortáveis ou embaraçosas. Seriam tão fáceis, simples e tranquilas quanto dizer "é cedo, fica um pouco mais"

*Salut*

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