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domingo, 11 de maio de 2014

[Filme aos domingos] Caché


Para quem está habituado ao cinema de Michael Haneke, sabe que ele é fiel ao estilo que o consagrou. É um cineasta com uma identidade bem definida. Longos planos estáticos, cortes abruptos, câmeras subjetivas, ausência de trilha sonora, narrativa seca e crua são elementos recorrentes em suas obras. Em Caché, não é diferente. Todos estes itens corroboram a sensação de aflição que permeia o filme e acompanha personagens e espectadores durante toda a trama. E assim como em outros títulos que compõem sua filmografia, Caché também retrata personagens da classe média em situações de desespero e paranóia, à beira do abismo. Inicialmente temos acesso à rotina frívola de um prestigiado apresentador de televisão ao lado de sua família, que começa a receber telefonemas anônimos e desenhos perturbadores, além de fitas de vídeo cujo conteúdo são fatos corriqueiros de sua vida. Tudo de um caráter doentio. Seu perseguidor, parece acompanhá-lo em cada um dos espaços que ele frequenta. A trivialidade cede lugar a um fato trágico após o confronto com o passado e uma realidade inesperada. O protagonista se sente coagido por ter culpa e por carregá-la durante anos, tentando enterrá-la de alguma forma em seu íntimo. Haneke utiliza o choque e a violência como mecanismos que orientam seus personagens e conduzem sua trama produzindo um impacto gráfico que contrasta com a constante sutileza e elegância de sua câmera. Também explora espaços fechados tirando bom proveito de seus cenários, atentando para a riqueza dos detalhes e transmitindo ao espectador uma sensação inevitável de claustrofobia. Como de praxe, o diretor nos faz voyeurs, espiando a interação entre os personagens de longe, sempre à distância. Em dado momento, nos fazendo sentir intrusos e um tanto constrangidos ao adentrar um universo de segredos tão aterradores. Outro dos achados deste longa, é mostrar diferentes ângulos de uma mesma sequência, não só apresentando uma outra perspectiva da cena, como tornando mais claro o seu objetivo com este filme. O final inconclusivo pode soar frustrante para aqueles que não compreendem aonde Haneke quis chegar. Muito mais do que apontar culpados, o cineasta quis mostrar a consequência da causa, a ação da reação. O que ocorre quando somos confrontados com o passado e o sentimento de culpa. Quais são os nossos limites e como podemos perder o controle sobre nossas próprias atitudes e mesmo sobre nossas próprias vidas. 

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