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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

[78 Rotações] Adriana Calcanhoto


Foi assim, sem querer e sem perceber, que comecei a gostar de Adriana Calcanhoto. Durante muitos anos, eu apenas me limitei a ouvir alguns de seus clássicos, obviamente a melancólica Mentiras, Metade (que foi trilha sonora de uma novela das sete, se bem me lembro), e a bonita Mais Feliz, composta por Cazuza. Ouvi algumas outras de seu álbum dedicado ao público infantil, Adriana Partimpim, mas não me entusiasmei. 

Em meados do ano retrasado, se não me engano, decidi corrigir este erro e fui atrás de alguns vídeos de shows da cantora no youtube (e Deus inventou o youtube!). Fiquei me perguntando porque demorei tanto a conhecer mais de seu trabalho. No ano passado, ouvi pela primeira vez Senhas de 1992, seu segundo álbum de estúdio, do qual fazem parte dois de seus grandes sucessos - o já citado Mentiras e Esquadros, que é de uma sensibilidade ímpar. Senhas é um álbum inspirador. Que disco maravilhoso, coeso, repleto de boas letras e arranjos. É inegável o fato de que Adriana é uma exímia intérprete, compositora e violonista. Suas canções são capazes de produzir naqueles que o ouvem com atenção, emoções tão variadas quanto a sonoridade de seu álbum. 

Grande parte das faixas são de sua autoria, mas o disco também conta com covers dos Titãs e Barão Vermelho (Milagres e Miséria, respectivamente), porém sempre com o seu toque autoral. A identificação com algumas de suas letras são imediatas. Transitando de maneira sutil entre o som mais urgente e as canções mais melódicas, com uma agradável mistura de ritmos e algum experimentalismo, Adriana Calcanhoto nos presenteou definitivamente com um dos álbuns mais deliciosos de se ouvir de que se tem notícia. 

E da seção: "músicas que eu gostaria de ter composto", fiquem com Senhas.

 

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
Eu gosto dos que têm fome
E morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem

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