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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

[78 Rotações] Dublê de Corpo


"Eu não reconheço mais olhando as fotos do passado
O habitante do meu corpo
Esse estranho dublê de retratos"


Não lembro quando foi que me julguei adulta pela primeira vez. Recordo-me agora de ler um post de um amigo no facebook, dizendo que ficava chateado por não poder fazer mais determinadas coisas, exclusivamente por ser adulto. Foi então que me dei conta que temos quase a mesma idade e, bem... Eu relutei em aceitar, mas se ele é um adulto, eu também sou.

Pelo menos por fora, isto é, aparentemente... Mentalmente, não. Não mesmo.

Eu tenho um imóvel em meu nome, pago a maior parte das contas, me importo demais com o preço das coisas e me preocupo absurdamente com o futuro próximo. Ser adulto significa, muitas vezes, fazer o que não se gosta, infelizmente. Por ser necessário, por dependermos, de certa forma, exatamente daquilo de que não gostamos.

Devo mesmo ser adulta. Já que adultos costumam, via de regra, ser muito chatos e preocupados. E eu faço muitas coisas de que não gosto também.

Acho estranho me referir a mim mesma como adulta quando ainda sou cheia de manias infantis; faço contagem regressiva para estreias de filmes da Marvel (que nem existiam na minha infância, na verdade); choro com animações da Pixar e rio com as piadas saturadas e repetidas de Chaves.

Eu completei 28 anos no último dia 24 de setembro. Assim como no aniversário anterior, o desespero por estar me aproximando dos 30 e ainda não ter um rumo definido, me assaltou. Percebi também a que encaro aniversários de uma forma bem diferente do que encarava há dez anos.


Lá pelos idos de 2006, eu acordava entusiasmada. Eu estava completando 18 anos, tinha milhares de sonhos, me arrumava mesmo que fosse passar o aniversário em casa - vestia uma roupa nova e me maquiava. Queria que tudo fosse perfeito. Assistia aos meus filmes favoritos, montava uma playlist especial com minhas músicas prediletas e só queria as pessoas que eu amava por perto. Ficava triste se alguém que considerava especial em minha vida não aparecesse para me felicitar. Esse entusiasmo perdurou. Mesmo sofrendo com o inferno astral, os aniversários seguintes correram de modo parecido. Tenho lembranças incríveis do aniversário de 21 anos, por exemplo...

Hoje, já não ligo mais.

Acordei no dia 24 de setembro falando "que merda" por algum motivo que já nem me lembro mais. Vesti minhas roupas casuais, de sempre. Mal penteei o cabelo e não passei sequer um corretivo no rosto. Permaneci de cara lavada durante o dia todo. Não vi meus filmes e nem ouvi minhas músicas favoritas. Lógico que comemorei ao lado das pessoas que amo, mas não me importaria de passar sozinha. Encarei aquele dia como se fosse qualquer outro e não me preocupei muito se alguns dos meus melhores amigos não tiraram um tempinho de seus sábados para me desejar um parabéns pelo facebook, whatsapp ou qualquer outro meio. Nem recebi uma declaração com direito a textão como costumo fazer para alguns amigos... Enfim, assim é a vida.



As coisas são bem diferentes de 2006. Quando eu olho para um retrato daquela moça com cabelos tingidos de loiro (!), bem mais magra e que já não curtia tirar fotos, penso que em muitos aspectos nos aproximamos, mas há mais distinções do que semelhanças...

O ano de 2006. Ah, glorioso! E como é triste e doloroso perceber que, a cada dia, aquele ano vai ficando cada vez mais para trás. Sempre tem aquele ano que te marca. Aquele período de tempo inesquecível, aquele ano que parece mais um rito de passagem.

Olhando em retrospecto, fazendo um balanço do que a minha memória conseguiu guardar, dos antigos e-mails que eu me recuso a apagar, das antigas fotos, dos arquivos e pastas gravados do antigo computador em diversos CDs... Quase não me reconheço. E aquele ledo engano de que não mudamos absolutamente nada? Amadureci em diversos aspectos, regredi em outros, aprendi muito, desaprendi muito mais, conheci tanta gente, exclui tantas outras, pensei que sabia o que queria fazer da vida, descobri que ainda não sei...

Às vezes, ainda tenho a sensação de que os últimos treze anos, pelo menos, foram um longo sonho repleto de altos e baixos, guinadas e derrocadas, do qual irei acordar e me dar conta de que ainda tenho quinze anos e estou em minha antiga cama, no meu antigo quarto, na minha antiga casa. Desta forma, ainda estarei no colégio, ainda não cursei a faculdade, ainda não conheci mais da metade das pessoas que compõem minha lista de amigos (será que todos eles existem de verdade?), ainda não existe twitter e nem facebook (será que um dia irão existir?), X-Men 2 ainda está em cartaz nos cinemas e eu ainda sou aquela pessoa que gostaria de ser aquilo que eu ainda não sou ou, definitivamente, o que sou agora.

Para terminar, fecho este texto com uma frase de minha autoria:

"Tem quem diga que ver álbuns de fotos é masoquismo e demonstra um apego desmedido ao passado. Discordo. Abro álbuns antigos para ter a certeza de que foi real e de que sempre tive pessoas especiais ao meu lado. Ainda que muitas não estejam mais aqui pra relembrar comigo".

Eu mesma, no facebook em 8 de fevereiro de 2013.

E lá se foram mais três anos desde que escrevi algo que jurava ter escrito ontem...



Foi tanta força que eu fiz por nada.
Pra tanta gente eu me dei de graça
(...)
Será que o tempo sempre disfarça
Tomara um dia isso tudo passa
Desculpa as mágoas que eu deixei

*Salut*

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