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sexta-feira, 27 de março de 2015

[78 Rotações] Pais e Filhos

Meu batizado há mais ou menos 27 anos. Meu pai deveria estar
achando tudo muito chato e já estava dormindo em pé
Este texto está pronto já faz um tempo, mas como minha irmã me avisou há poucos dias que 27 de março é o aniversário de Renato Russo (que completaria 55 anos se estivesse vivo), decidi guardá-lo para hoje, como forma de tributo ao líder da Legião Urbana, porta-voz de toda uma geração e nosso eterno poeta.

Interpretar uma música da Legião Urbana não é uma tarefa fácil. Ao longo dos anos, conforme vamos crescendo e vivendo diferentes experiências, também vamos interpretando as letras de Renato Russo de maneiras diferentes.

E, parafraseando Stanley Kubrick, todos são livres para especular à vontade sobre o significado filosófico e alegórico da obra. No caso, ele se referia a 2001: Uma Odisseia no Espaço. Mas a verdade é que isso se aplica a toda e qualquer obra. Não existe interpretação definitiva. Interpretar é um exercício que depende muito do repertório, da visão e da vivência de cada um.

E eu posso não compreender inteiramente o significado de Pais e Filhos, mas sei que Renato está versando sobre o conceito de família.

Família.

Ela já foi tema de diversas músicas, de Titãs a Padre Zezinho. Celebrada nos comerciais de margarina e bancos. Representada de maneira inteligente nos filmes de Ang Lee e Noah Baumbach. Retratada em desenhos animados de sucesso como Os Simpsons, em histórias em quadrinhos como o Quarteto Fantástico, e em sitcoms celebradas como Família Dinossauro e Married... With Children. E a maior força cultural brasileira, a telenovela, já nos mostrou diferentes perspectivas de famílias neuróticas e ricas do Leblon. 

Oh, desculpem-me... não consegui me conter e não escrever sobre os ricos do Leblon nas telenovelas.

Família é composta das melhores pessoas para te recriminar, julgar, criticar. Sempre haverá divergências de ordem política e até religiosa. Infelizmente, não há como você excluir de sua árvore genealógica como exclui os amiguinhos insuportáveis do facebook.

É um bom momento para informar que puxei o pragmatismo do meu pai. Não só o pragmatismo. Mas também o cinismo, o sarcasmo, o ceticismo e o agnosticismo.

Fisicamente, sou muito parecida com minha mãe. Psicologicamente com meu pai. 

A minha personalidade é praticamente um espelho das ideias do mais brincalhão e razoável do clã dos Bento. 

Não posso dizer que não me orgulho disso porque, de fato, me orgulho muito. 

Muitas vezes a ironia dele me machucou quando foi dirigida a mim. Até eu descobrir que a ironia era o melhor, mais inteligente e eficiente método de defesa e não de ataque, como sempre pensei. Percebi isso da primeira vez em que usei esse artifício de modo consciente. E, vejam só as voltas que o mundo dá, esse momento ocorreu quando usei a ironia com ele, meu pai.

A festa de debutante da minha irmã mais velha. As fotos são tortas mesmo
porque, dentre as várias atividades em que sou um fracasso total,
escanear é uma delas
Voltando à música, Pais e Filhos é uma canção intimista, narrada predominantemente do ponto de vista dos filhos. Esses seres que costumam ser ingratos, às vezes, e não ouvir os conselhos de seus pais porque eles são velhos (como já dizia Bom de Punho, o anti-herói do desenho animado Juniper Lee).

Ser mais razoável, mais justo, admitir os erros, reconhecer os acertos, tentar ser menos intransigente. Estes são conselhos valiosos para se manter um relacionamento bom, saudável e feliz. Qualquer relacionamento, inclusive o que existe entre pais e filhos.

Como diz Renato em um dos versos mais executados da história dos karaokês e das rádios AM e FM:

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.

Pois o amanhã pode não existir. Ou podemos não estar mais aqui. Ou pode ser que o amanhã de amanhã não seja o mesmo amanhã para todos nós. Quem sabe do futuro? Quem sabe o que virá? Pode ser que amanhã, as pessoas que estão do seu lado agora, não estejam mais.

Ninguém me disse isso antes de meu pai morrer.

E eu gostaria que tivessem me dito. Pois, partindo daquela ideia ingênua e egoísta que cultivei desde criança, os pais dos outros é que morriam. O meu não morria. Nunca

E depois que ele morreu, eu finalmente aprendi que as pessoas próximas de mim não estavam imunes à morte. E outras perdas no decorrer dos anos foram me mostrando isso ainda mais nitidamente e de uma maneira até cruel. Por isso é importante aprender a valorizar os momentos em que estamos ao lado daqueles que são importantes para nós. Eu aprendi da maneira mais dolorosa.

E, por mais que os conflitos e divergências existam (eles tem que existir, no final das contas), seus pais talvez venham a ser as únicas pessoas que realmente vão te apoiar, ainda que te critiquem. Que vão sentir sua falta, mesmo que digam "eu não quero ver você na minha frente" em alguns momentos. Que vão sempre te amar, mesmo que te odeiem de vez em quando.

Que outra criatura, por exemplo, pegaria as suas fotos 3x4 horrendas da carteira de identidade e de trabalho, as abraçaria, beijaria e diria "que amorzinho"? Só mesmo as mães para achar um amorzinho o seu rosto deformado e irreconhecível naquelas fotos. Esse episódio ocorreu ainda ontem aqui em casa.

Pai e mãe, eu posso não ter passado ainda pela experiência, mas pelos anos que os observei, percebi que as suas são as ocupações mais difíceis, trabalhosas, exaustivas e menos reconhecidas de todas.

É certo que os pais precisam entender que os filhos necessitam de seu próprio espaço, de cometer seus próprios erros de modo a aprenderem importantes lições, que não podem ser perfeitos, e que é injusto compará-los aos filhos do vizinho. Pois garanto que o vizinho também compara os seus aos filhos perfeitos dos outros.

Ainda assim, os nossos pais precisam ser mais valorizados por nós, os filhos. Mesmo que eles sejam impertinentes em alguns momentos. Não é necessário e nem justo culpar os pais por tudo. Isso é absurdo.

No final das contas, eles são crianças como você. E são exatamente o que você vai ser quando você crescer.



 *Salut*

8 comentários:

  1. Excelente texto, excelente referências ... eu ainda acho que a família pode ser o nosso maior bem ou o nosso maior problema ... claro, existe como em toda família, aquele carinho e afeto, tanto quanto aqueles almoços problemáticos ... tem um filme que eu adoro chama-se Álbum de Família, da uma assistida.

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    1. Curto muito seus comentários no meu blog, Chris. Sempre muito construtivos =)
      Que bom que gostou do texto. Eu vi Álbum de Família, mas não gostei tanto quanto achei que fosse gostar. Mas as atuações da Meryl e da Julia Roberts são sensacionais bem como alguns diálogos. Abraço!

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  2. ola amei seu blog tem excelente escrita boa sorte

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    1. Muito obrigada, Lanny! Pra ti também, abraço!!

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  3. Belo texto, você escreve super bem. :)
    http://corujasemasas.blogspot.com.br/
    Beijos! <3

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    1. Valeu, Cristiane! Fico feliz que tenha gostado do texto.
      Obrigada pela visita, comentário e elogio ;)

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  4. é muito tempo para guardar tanta foto, adorei!

    um abraço apertado do blog: Mundo da Fani

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    1. Hahahaha! são apenas duas no post, mas tenho álbuns repletos delas. Muitas fotos antigas.
      Obrigada por passar por aqui e comentar, Fani!
      Bjão ;)

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