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quinta-feira, 12 de março de 2015

[A vida, o universo e tudo mais] Sobre religião, ateísmo e a busca do paraíso

"Esse mesmo Deus foi morto por vocês, é só maldade então deixar um Deus tão triste" (Renato Russo) 

Eu corro o risco de parecer intolerante perante alguns com a minha próxima sentença, mas como não sou de guardar nada para mim mesma, ainda mais em um espaço que reservei justamente para expor minhas ideias e opiniões, vamos lá:

A maior parte (e quando digo isso, deve ser em torno de 97%) dos religiosos fervorosos que conheci pela vida, estavam constantemente infelizes e insatisfeitos. Reclamavam de tudo, não tinham dias 100% bons. Alguma coisa sempre atrapalhava, incomodava, dava errado, estava fora de lugar.

Creio que muitas destas pessoas acreditavam que, por meio da oração extensiva, iriam alcançar mais rapidamente o paraíso. Pior ainda: acho que elas sentiam que eram mais merecedoras e que Deus tinha a obrigação de lhes ofertar o paraíso na Terra, exatamente por rezarem mais do que outros.

Ora, se elas rezam tanto e são tão devotadas a Deus, o mínimo que Este pode fazer para lhes recompensar é lhes oferecer a felicidade plena em todos os setores de suas vidas.

Em contrapartida, as pessoas que conheci que não se ligavam muito em religião, oravam pouco ou nada - algumas que acreditavam em Deus apenas, outras que sequer acreditavam - eram mais tranquilas, encaravam as coisas com parcimônia e procuravam resolver os problemas com calma e da melhor maneira possível. Jamais soltavam o famigerado "por que Deus está me castigando?" não somente por não acreditarem que os problemas corriqueiros, e que todos enfrentam em algum ponto da vida, se tratam de castigo divino, mas também porque não achavam que Deus estava sendo injusto com elas após passarem a vida indo à igreja todo domingo

Não é porque você ora mais do que qualquer outro que isso te faz mais merecedor de paz e justiça. Não é porque você reza mais do que os seus vizinhos que a árdua tarefa de levantar cedo para trabalhar com colegas pouco interessados e produtivos, sob pressão de um chefe mala, vai deixar de ser uma obrigação cotidiana. Ou que você não vai mais encontrar pessoas mal-humoradas e mal-educadas no ônibus lotado e sem assentos disponíveis logo pela manhã. Ou que você vai ganhar uma promoção e todos os seus problemas financeiros irão se resolver milagrosamente.

Sem brincadeira: já ouvi da boca de uma mulher extremamente papa-hóstia que ela não merecia essa vida de acordar cedo todo dia pra trabalhar, e ainda receber um salário péssimo, depois de passar os últimos 20 anos comparecendo à missa pelo menos três vezes por semana.

O que me leva a concluir tristemente que boa parte dos religiosos fervorosos que conheci devotavam suas vidas a Deus exclusivamente pela recompensa de uma vida melhor. Aliás, de uma vida perfeita. Sem problemas. Sem injustiças. 

E, para completar, muitas vezes tratam-se de objetivos egoístas. A pessoa ora obsessivamente para ter o paraíso para si. Não para todos. Ela é quem rezou, afinal. Se os outros quiserem também, que rezem tanto quanto ela.



Ótima frase!

Dizem por aí que os ateus estão entre as minorias mais odiadas e desprezadas no Brasil ao lado dos gays. Ser ateu em um país católico e conservador (sim, o Brasil é conservador pra caramba, não venham me dizer que não é) é um crime. Aliás, todos os criminosos só podem ser ateus

Tenho um sem-número de amigos ateus, assim como muitos que acreditam em Deus e alguns outros que são moderadamente religiosos. Todos gente boa, pessoas incríveis. E não digo isso por serem meus amigos. Mas se não os achasse incríveis, sequer estariam no meu círculo de amizades. 

Os ateus que conheço fazem sua parte todos os dias: estudando, trabalhando, ajudando ao próximo sem esperar uma recompensa divina por isso. Eles realmente não fazem nada esperando o reconhecimento de Deus, aguardando uma retribuição. Fazem por fazer; por gostarem de fazer.

Por que exatamente eles são pessoas más, então?

Talvez um tanto tardiamente (isto é, a esta altura do texto, alguns de vocês já me julgaram pela minha posição, obviamente), quero esclarecer que não estou generalizando. Falei apenas das pessoas que conheci. E as pessoas que conheci não representam nem 0,00001% da população. Mas tenho certa confiança em pesquisas empíricas. 

Saí a meu pai, Ele chegou a esta constatação primeiro 

"Eu acredito em Deus, mas compreendo os ateus e gosto da filosofia de vida deles. Pelo menos daqueles que conheci. Sabe por quê? Porque eles não fazem nada esperando serem recompensados. Diferentemente de certas pessoas que conheço que só fazem o bem ao próximo porque querem ganhar seu pedacinho de céu".

Vou preservar a identidade e o grau de parentesco que a pessoa que proferiu a pérola do pedacinho de céu (na televisão, inclusive) tinha conosco. Mas meu pai fez uma excelente comparação.

Eu acredito em Deus. Rezo pouco. Não rezo, na verdade. Converso com Deus do meu modo. Há muito tempo não vou à missa. Creio que a última vez que compareci a uma foi há quase dois anos e se tratava da missa de sétimo dia do meu cunhado. Acho um absurdo paróquias tão imponentes. Não vejo motivos para comparecer à igreja quando, desde crianças, ouvimos repetidas vezes a frase: Deus está em todo lugar. Assim sendo, se você quiser bater um papo com Deus sentado em um banco da praça, tudo bem. Ele vai te ouvir de qualquer jeito. Embora os circunstantes vão, inevitavelmente, te chamar de maluco. Acho que a bíblia é uma literatura fantástica interessante (oh, a blasfêmia) repleta de personagens fictícios e figuras de linguagem que jamais deveriam ser traduzidos ao pé da letra. 

Não julgueis para não serdes julgados

Mas, pra muita gente, ele é um tirano que odeia minorias
O mais curioso é que vejo diariamente no facebook que os mais fieis leitores da bíblia são os que mais julgam. Julgam as pessoas pela orientação sexual, pela posição política, pelo fato de irem pouco à igreja ou por serem ateus...

Respeito a religiosidade de cada um, mas jamais deixarei de ficar intrigada com as contradições da religião e dos religiosos. Existem leis que, de certa forma, parecem contrariar outras leis. Isto em qualquer constituição, inclusive na constituição divina. 

Também jamais vou me conformar que tantas pessoas utilizem a religião para justificar discursos de ódio (sendo que qualquer discurso de ódio é infundado por natureza). E Deus realmente aprovaria tantas pessoas matando em Seu nome? Não sou a maior especialista em Deus, mas estou convicta de que Ele abominaria esta atitude.

E enquanto nos valermos de discursos de ódio, guerras por conta de posição religiosa, julgamentos desnecessários, sinto muito, mas estaremos cada vez mais distantes de um paraíso na Terra. Ainda que os religiosos fervorosos rezem mais do que você. Ou eu. 

3 comentários:

  1. sei là, eu concordo.....
    mas faz sentido. tem gente que reza muito com o objetivo de alcançar uma graça
    acho que esse é o principal objetivo da oração
    então, se não alcança essa graça, se sente meio injustiçado
    como se as preces não tivessem sido ouvidas
    mas as pessoas confundem muito
    você pode rezar o dia inteiro, mas nem tudo aquilo que você pedir vai se realizar afinal a vida também é feita de problemas e situações difíceis
    e através disso que aprendemos a viver, né mesmo?

    bjos drizy!

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    1. Exatamente isso, Vitto. E se formos pensar dessa forma - que todas as nossas preces devem ser atendidas - seremos constantemente infelizes mesmo. Acho que é necessário enfrentar a vida, levantar a cabeça, dar a volta por cima, ao invés de se lamentar e achar que só rezar pode resolver tudo.

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  2. Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. - Tiago 2:1

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