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sexta-feira, 10 de abril de 2015

[Café com páginas] Cartas para os mortos e o coração da tempestade...



Cartas de Amor aos Mortos

Tentando superar a morte trágica e prematura  da irmã apenas alguns anos mais velha, Laurel faz de sua primeira tarefa de inglês um projeto pessoal. Trata-se de escrever uma carta para alguém que já morreu. A protagonista passa, então, a escrever diversas cartas para ídolos mortos como um meio de desabafo e tentando compreender as razões que os levaram tão cedo à morte. O projeto torna-se praticamente um diário no qual ela tenta desesperadamente se comunicar com aqueles que já se foram. Vi diversas críticas negativas ao livro que ressaltavam o fato de trazer uma visão pueril da adolescência e apontando a protagonista como uma rebelde sem causa, autodestrutiva e que se recusa a crescer. Eu concordaria se a abordagem da narrativa não fosse tão interessante e criativa. Obviamente que uma garota de 15 anos tem uma visão mais romântica e sonhadora da vida. E tendo passado por experiências tão traumatizantes, incluindo a separação dos pais e a morte da irmã, em instantes de fragilidade emocional não é incomum que ela se comporte de maneira autodestrutiva. Ouvimos e conhecemos casos assim  diariamente. Isto se dá por conta não apenas da idade, mas da imaturidade, falta de comunicação com aqueles que ama, o sentimento de culpa por achar que poderia ter feito algo para impedir a morte da pessoa com quem mais se importava, e que são despertados pela sensação de fracasso em tudo o que faz, além do receio de não conseguir manter uma amizade ou um relacionamento amoroso. É como se os únicos que lhe entendessem fossem realmente seus saudosos ídolos. Seria estranho se a autora optasse por mostrar uma adolescente que soubesse lidar com todas essas experiências de maneira adulta e madura; se Laurel não fosse ingênua, solitária e deslocada como é, ainda mais em um livro narrado em primeira pessoa. E Cartas de Amor aos Mortos seria uma história extremamente manjada, repleta de lugares-comuns se Ava Dellaira optasse por uma narrativa mais convencional. Os dramas da protagonista são apresentados de maneira singela e melancólica. O livro aborda experiências típicas da adolescência e temas pesados como suicídio e abuso sexual infantil, ao mesmo tempo em que narra o poder da amizade, do amor e da família. Mas a grande sacada é o fato de a trama ser contada inteiramente por meio de cartas tocantes que Laurel escreve para Kurt Cobain, Janis Joplin, Jim Morrison River Phoenix, Amy Winehouse, Heath Ledger, Judy Garland, dentre outros. Isso faz o livro valer a pena. 


No Coração da Tempestade

Uma jornada muda uma pessoa, diz o pai do protagonista em uma certa passagem da história. Não consigo apontar nenhuma sentença mais certeira do que esta. Olhando pela janela do trem, a caminho da Segunda Guerra Mundial, o jovem soldado Willie confronta seu passado. É como se a janela se convertesse em um telão onde são projetadas as memórias de sua infância e adolescência. No Coração da Tempestade, do mestre dos quadrinhos Will Eisner (criador de Spirit), é uma verdadeira aula de história que apresenta ao leitor as principais transformações sociais e econômicas pelas quais passaram Europa e América durante a primeira metade do século XX, através do olhar de um jovem e carismático protagonista. Recorrendo ao recurso do flashback durante toda a trama, a graphic novel versa sobre o preconceito e o antissemitismo do qual Willie e sua família de imigrantes judeus foram alvos durante toda a vida. Bem como a luta deles para sobreviver em meio à depressão econômica. A arte primorosa se destaca pela qualidade e elegância do traço e, somada à uma narrativa densa e inteligente, delineiam precisamente o cenário histórico. O preto e branco bem trabalhado e o ótimo jogo de luz e sombras conferem um contraste que ressalta a melancolia da trama e a crueldade dos personagens. Outro item que não posso deixar de citar é a preocupação com os detalhes, especialmente no tocante às manchetes de jornais que sempre aparecem fazendo figurações necessárias e ilustres. O quote e o quadro que encerram a história apenas confirmam que o leitor está diante de uma obra-prima. Se equilibrando em uma tênue linha entre a ficção e a autobiografia, tendo sido baseada nas memórias do próprio Eisner (ele mesmo a descreve na introdução como uma mal-disfarçada autobiografia), No Coração da Tempestade é indispensável na coleção de qualquer amante dos quadrinhos 

18 comentários:

  1. Tenho vontade de ler o primeiro :c
    Já vi bastante resenhas

    www.iamcamilakellen.blogspot.com
    https://www.youtube.com/watch?v=nEzNDpRb7kg

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    1. Vale a pena a leitura. Espero que goste!
      Bjos e obrigada pela visita e comentário ;)

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  2. no coração da tempestade é muito foda! obra prima mesmo

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    1. É uma obra maravilhosa mesmo. Me arrependo de ter demorado tanto tempo pra lê-la.
      Leitura indispensável. Obrigada pelo comentário, Vitto <3

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  3. Eu só li Cartas de Amor aos Mortos, e concordo com a sua opinião, podia ser como qualquer outra história se não fosse pelo formato com a autora escolheu pra contar a história!

    Beeijo
    http://resenhandosonhos.com

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    1. Exatamente. Narrar a história por meio das cartas foi um achado e o grande diferencial.
      Obrigada por passar por aqui e comentar! Beijão ;)

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  4. Ainda não li "Cartas de Amor aos Mortos", mas tenho curiosidade de conferir. Gosto de histórias que têm um quê melancólico e gosto da ideia das cartas, mas os lugares-comum que você falou (e que já vi outros blogueiros ressaltarem também) me deixam com um pé atrás.
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

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    1. Pode ler sem medo, Mariana. Embora tenha alguns lugares-comuns, a ideia das cartas mais do que compensa. É uma ótima abordagem, bem criativa. Bjos e obrigada pela visita e comentário ;)

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  5. O livro Cartas de Amor aos Mortos ganhou meu coração e deixou com vontade de ler, para eu saber como termina essa história.

    Encanto de Cupcake
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    1. Espero que goste do livro, Ingrid =)
      Obrigada por passar por aqui e deixar um comentário.
      Bjos!

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  6. Boas indicações, adorei!!

    http://patibborba.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada, Patricia!
      Valeu pela visita ;)
      Beijão!!

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  7. Oiie,
    Eu tenho muita vontade ler o primeiro, acho que ler muitas criticas me deixou curiosa...
    Quanto ao segundo, eu não conhecia, mas parece ser bom.
    Adorei as dicas!

    Beijos,
    Juh
    http://umminutoumlivro.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Juh! Espero que goste de ambos.
      Bjos e obrigada por me visitar e comentar ;)

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  8. Já ouvi muita gente comentando sobre o livro Cartas de amor aos mortos. Nunca li nenhum dos dois do seu post, mas super interessante :)

    www.vivendosentimentos.com.br

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    1. Cartas gerou um burburinho mesmo. Assim que puder, dá uma conferida nos títulos indicados ;)
      Bjos e obrigada pela visita e comentário!

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  9. Eu li Cartas de Amor aos Mortos e me decepcionei um pouquinho, esperava bem mais, sabe?
    Ainda mais pelo formato da narração ser diferente, que foi o unico ponto que me agradou.
    Estava olhando o seu blog e Acabei te indicando em uma tag, dá uma olhada:
    http://nomundodecoraline.blogspot.com.br/2015/04/tag-amo-odeio.html

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    1. Eu entendo! A história é bem clichê, né? Mas a forma como foi contada me fez dar um desconto. E também o fato de saber que a protagonista é uma adolescente depressiva e que, inevitavelmente, a história ia resvalar nesses lugares-comuns. Mas compreendo quem não curtiu. Obrigada por me indicar! Vou responder no próximo post ;)

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