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sábado, 6 de junho de 2015

[Meus escritos] Cartão de Visitas (ou Crônica de uma Visita Não Anunciada)

"Os roteiristas de Arquivo X estavam mesmo certos. A verdade está lá fora..."

Para ouvir lendo: "Side" by Travis




Por mais clichê que isso possa soar, se tratava mesmo de um belo dia, realmente bonito e ensolarado, quando os extraterrestres resolveram invadir a Terra. Eu acordei, olhei pela janela e lá estavam eles. Se achando os donos do pedaço. Como se tivessem todo o direito de estacionar em nosso território e fazer um passeio turístico por estas bandas.
Eu esperava que eles fossem apenas turistas.
A ideia de eles ficarem, conviverem conosco e, posteriormente, nos controlarem, era assustadora (uma vez que é sabido que eles possuem inteligência superior e até mesmo dons especiais. Pelo menos foi o que os filmes de Steven Spielberg me ensinaram. E eu confio plenamente em Spielberg. O cara é um Deus do cinema. Ele é para o cinema o que Beethoven é para a música. Desculpem-me por minhas referências simplistas, mas eu não sou conhecido por ter um amplo repertório... bem, deixem-me continuar com meu relato antes que eu perca o fio da meada).

Assim que as famílias sem graça e sem sal dessa vizinhança morna, pacata, tranquila, enfadonha e chata demais, se deram conta das naves espaciais aterrissadas nos quintais de suas propriedades, trancaram todas as portas e janelas. Alguns passaram a espiar por entre as frestas das cortinas, outros correram para se esconder debaixo de suas camas e mesas.
Ridículo.
Está certo que nosso conhecimento acerca de extraterrestres é baseado apenas no que vimos no cinema americano. Mas não é possível que exista no universo um povo tão ou mais atrasado do que nós. Não, Deus não seria assim tão sacana. Se é que ele existe realmente...
Eles possuíam naves. O que quer dizer que Hollywood e os livros sci-fi não estavam de todo errados. E tinham a nossa forma. Eram muito parecidos conosco. Certamente eram transmorfos. Apenas vieram com forma humana para não nos assustar. Eles possuíam aparelhos que irradiavam luzes vermelhas e verdes e os usavam para inspecionar a grama (!). 

Certamente portas e fechaduras não representavam nenhum desafio ou obstáculo para eles.
O fato é que ninguém saiu para socializar. Todos estavam com medo. O que é compreensível, afinal a gente passa a vida inteira crendo que seres extraterrestres não existem. Tratam-se de pura ficção. E, de repente, eles estacionam seus enormes veículos - que não parecem depender de álcool ou gasolina para o seu funcionamento - em nossa grama, em cima das nossas rosas, lírios e margaridas. Em um dia de sol aparentemente comum.
Uma tempestade de naves espaciais. Óbvio que gerou pânico. Tememos o desconhecido e blábláblá. E simplesmente não parecia ser verdade que seres de outro mundo estivessem aportando na Terra. Sua existência nunca fora cientificamente comprovada. Como poderíamos lidar com este fato? Algo que pegou a todos com a guarda baixa, totalmente desprevenidos?
Agora eles estavam diante dos nossos olhos, chegando sem aviso prévio. Meses depois do dia em que o mundo deveria ter acabado.
E mesmo os pseudo-ufólogos, entusiastas da área e fãs de Arquivo X estavam paralisados de medo, trancados em suas casas.
Bando de farsantes. Passaram anos orgulhosamente clamando que acreditavam em algo e quando esse algo, que ninguém mais acreditava além deles, se mostra muito real, correm feito cãezinhos assustados para dentro de suas casas. Porque uma coisa é dizer que acredita em alienígenas e posar de louco na frente de todos somente para dar uma de indivíduo cool. Outra bem diferente é o diacho acontecer. Quiseram tanto se mostrar crédulos para provocar os céticos, mas esqueceram de ensaiar suas reações para quando os ETs finalmente chegassem aqui... Então, a vinda de extraterrestres se tornou um fato e eles não tiveram coragem de fazer algum contato. Decerto porque também não acreditavam que, um dia, isso fosse acontecer realmente...
Eu só queria saber a que horas eles iriam embora em suas naves espaciais. Esperava que não demorasse muito. Eu queria sair de casa, mas não seria o primeiro a me arriscar. Vai que aquela coisa que eles estavam usando para inspecionar a grama (!) fosse apontada em minha direção, assim que eu ousasse abrir a porta, e fritasse meu cérebro? Não. Que fosse outro o audacioso felizardo a ter o cérebro frito apenas por sair de casa. Não estava certo de que eles vieram para nos aniquilar - começar uma lenta extinção de nossa espécie e assim colonizar a Terra - mas nunca se sabe. Então apenas pedi a um Deus que eu não acredito para que eles fossem embora de uma vez, que não voltassem e a gente fingisse que nada daquilo aconteceu. Foi a nossa imaginação nos pregando uma peça (a imaginação de quase quatro mil habitantes trabalhando conjuntamente, mas tudo bem). De qualquer forma, as coisas voltariam à uma aparente normalidade assim que eles se fossem.
Que vão embora logo, eu pensava, eu preciso muito comprar cigarros.
* * *
- Seus vermes! Malditos! Colonizadores! Ladrões de planeta! Boiolas!
Era o velho hidrófobo Eldorado Abreu. Mais conhecido pelas crianças do bairro como Esclerosado Abreu. Estava no auge dos seus 87 anos e passava o dia dirigindo imprecações a quem quer que fosse. Eu era muito grato a ele. Salvou a minha vida várias vezes. O Abreu vinha funcionando como meu despertador há anos. Todos os dias, pontualmente às seis e meia da manhã, me despertava com seus gritos.
- Seus vermes! Malditos! Mordedores! Insetos! Invasores de calças! Boiolas!
Era ele brigando com as formigas do seu jardim.
- Seus vermes! Malditos! Sarnentos! Peludos! Pulguentos! Boiolas!
Era o velho Abreu brigando com os cachorros da rua.
- Seus vermes! Malditos! Malcriados! Vagabundos! Analfabetos! Boiolas!
Era o velho brigando com os meninos que, no caminho para a escola, sempre passavam em frente à casa do Abreu para tirar uma com a cara dele. Inclusive perguntando por que seu nome era composto de dois sobrenomes. Após os insultos, eles seguiam em frente, rindo e mandando beijinhos para o velho, de modo a corroborarem o “boiola” que ele gritava incessantemente.
Se não fosse o Eldorado Abreu gritando todas as manhãs, eu acordaria sempre atrasado para o trabalho.
Devia muito a ele, portanto decidi arriscar minha vida para salvá-lo dos ladrões de planeta.
Atravessei o gramado com passos relutantes e receosos e me aproximei.
Os olhos dos extraterrenos se desviaram do velho Abreu, detendo-se em mim.
Eles não haviam feito nada contra ele. Embora vociferasse, esperneasse, sacudisse os braços, cerrasse os punhos diante dos invasores, eles apenas o fitavam. Alguns de maneira inexpressiva, outros com curiosidade.
Eu dei uma risadinha amarela e sem graça.
- Há! Velho Abreu, o que está fazendo aqui fora? Você deveria estar cuidando do seu jardim para que as formigas não o destruam, lembra?
- Formigas? Vermes, Malditos! Mordedores! Insetos! Invasores de calças! Boiolas!
E saiu, rumando para o seu jardim, a fim de combater as formigas.
E eu fiquei ali, com aqueles estrangeiros me encarando solenemente.
- Desculpem o velho Abreu. Ele já não bate bem das ideias, anda sempre com raiva...
- Estamos decepcionados.
- Ah, sim, mas o Abreu não quis... Estão o quê?
- Decepcionados. Lá em cima nos disseram que os terráqueos eram calorosos, hospitaleiros, amistosos... Nos recepcionariam bem e até ofereceriam xícaras de café. Especialmente os brasilenhos. Mas não. Correram para dentro de casa, se esconderam, ficaram nos espiando pela janela com uma expressão muito feia em que se arregala os olhos, e justo um idoso, que nos disseram ser a mais cortês e respeitosa das criaturas terráqueas, nos ofendeu. E depois de todo o trabalho que tivemos para aprender seu idioma medíocre e a copiar as suas formas bizarras.
- Olha aqui! – eu comecei a dizer com o dedo em riste. Sei lá o que me deu. Eu sequer sabia com o que estava me metendo – Primeiramente, vocês têm muita sorte de não levarem uma bala perdida no traseiro ou no meio das fuças. Ou do velho Abreu não ter mais a espingarda dele porque eu a escondi.
Se o velho soubesse desse fato, diria: “Seu verme, maldito, ladrão de espingarda, boiola”.
- Em segundo lugar, não somos brasilenhos. Somos brasileiros.
- Tanto faz.
- O que acharia se eu os chamasse de marcianos?
- Não somos de Marte. Embora gostemos de lá.
- Então... bem, é isso! E outra: Vocês invadem nosso planeta e querem que a gente aja como se um velho amigo que não vemos há mais de vinte anos reaparecesse e os convidemos para um café? Isso é mais bizarro do que as nossas formas. E essa expressão “feia” a qual você se refere, é medo.
-Medo?
- Sim!
- O que é medo?
Eu fiquei confuso por um segundo, não sabia como explicar.
- Sabe? Apreensão diante do desconhecido...
- Apreensão?
- Sim, nós ficamos aterrorizados... Sempre fomos assombrados pela ideia de extraterrestres invadirem nosso planeta.
- Hum... acho que posso compreender. Não sabíamos que vocês não lidavam bem com visitas de extraterrenos. Pelo que levantamos do histórico dos terráqueos, eles sempre gostaram muito de seres de outros planetas. Alguns se tornaram músicos, outros médicos e cientistas por aqui.
Minha cara era um ponto de interrogação tamanho família.
- Talvez eles nunca tenham revelado suas verdadeiras naturezas... Bem, terráqueo, é muito comum fazemos visitas a outros planetas. Estamos acostumados também a receber estrangeiros no nosso. Então, mil perdões se não é um hábito de vocês.
- É... tá? Estão... Perdoados?
- Obrigado, Terráqueo. Agora, espero que isso não venha a causar problemas futuramente, pois pretendemos ficar.
- Oi?
O extraterrestre deu um largo sorriso.
- Olá, terráqueo! Agora apertamos as mãos um do outro, certo?
E ele agarrou minha mão e apertou. Era quente, não gelada como imaginei.
- O que está fazendo?
- Você disse “oi”. Achei que estávamos recomeçando a conversa do modo como deveria ser.
- Não... é que... eu ouvi direito? Vocês pretendem ficar?
- Sim. Quisemos nos mudar. Gostamos das condições daqui, do clima... Queremos conhecer mais a respeito dos cães e gatos que lideram vocês.
- Eu me perdi aqui... cães e gatos? – eu era a confusão em pessoa.
- Exatamente! Não há mais como viver em nosso antigo planeta. Entramos em conflito com nossos líderes, pois eles são a favor da aleatoriedade. Nós, da exatidão. E vocês, da Terra, parecem gostar muito da exatidão, mesmo que ela seja um ideal utópico. Como rebeldes, nós apoiamos a utopia!
A minha cara de quem não estava entendendo lhufas deve tê-lo comovido. Só isso explica a ideia maluca que teve repentinamente.
- Err... bem! Ele vai lhe explicar tudo – disse apontando para um de seu bando, de aspecto jovem e tímido – ele é um recém-nascido. Nasceu há apenas duas semanas. Creio que está mais de acordo com sua capacidade intelectual, então vocês poderão se comunicar sem problemas e se entender.
Me senti ofendido e consternado.
- Obrigado pela parte que me toca.
- Não estou lhe tocando.
- É modo de dizer. Mas olha, por que se mudarem justo para a Terra? Não tinha outro planeta, não?
- Planeta-anão? Ah, seria desconfortável para nós.
- Eu disse Planeta vírgula não.
- Não conheço o Vírgulanão. De qualquer modo, não nos mudamos para nenhum dos outros planetas que conhecemos e visitamos porque estão inchados. Superpopulosos.
- Olha, também estamos enfrentando problemas de superpopulação por aqui.
- Está brincando! A Terra tem apenas sete bilhões de habitantes.
Da maneira como ele falou, pareceu pouco mesmo. Imaginei que os outros deveriam ter o triplo disso, no mínimo. Então não quis mais discutir. Tudo é relativo, afinal.
- E queremos um planeta mais “exato”. Sei que você ainda não entendeu, então converse com nosso camarada. Leve-o para sua casa para tomar o tal café enquanto terminamos nosso trabalho por aqui. Estamos inspecionando o ambiente para poder montar nosso acampamento.
Então percebi que enquanto eu dialogava com o metido a sabichão, os outros estavam inspecionando a grama com aquele aparelho engraçado. Dei uma boa olhada no “camarada” que iria tomar café comigo.
- Para quem nasceu há duas semanas, ele parece ter quase a sua idade. Uma pena vocês não passarem pelo estágio adorável do berço.
- ?
- Bebês...
- Ah, sim, aquelas criaturinhas pequeninas e tolas que vocês, terráqueos, são quando nascem. Não precisamos. Só as raças menos desenvolvidas e inteligentes passam por esse estágio horrendo, pois necessitam de anos de crescimento físico e intelectual para se adaptarem e aprimorarem. Agora vão.
- Sujeitinho arrogante – murmurei antes de pegar o camarada pelo braço e levá-lo para minha casa para tomar café e obter algumas explicações.

[continua...]
* * *
Salut

8 comentários:

  1. Eu morro de medo de extraterrestres, mas surpreendentemente não morri de medo com sua história. Já pensou em escreve rum livro? Eu consigo me imaginar lendo um livro com este enredo. Está muito bem escrito. Parabéns!

    Tudo Tem Refrão

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    1. Oi, Ágata! Fico feliz demais que tenha gostado. Seu comentário tornou meu dia melhor =)
      Tenho muita vontade de escrever um livro, mas me falta disciplina... tenho muitos projetos começados e não-finalizados no meu computador. Mas quem sabe? Tudo é uma questão de eu me organizar e me pressionar um pouco mais. Muito obrigada pelas suas palavras <3

      Bjos!

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  2. Minha irmã e louca por essas coisa de Et's, eu já nem tanto...
    Porém muito om seus escritos...
    Gostei bastante!!!
    Te desejo uma ótima semana!!!
    Beijos e beijos

    http://simplesmentelilly.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigada pela presença e comentário aqui no blog, Lilly :)

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  3. Eu ADORO tudo sobre ETs HUEAHUHEAU!
    Meu sonho encontrar com um por aí, heuaheuahuea
    Um beijão e até mais.

    www.queridaga.com

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    1. Hahaha! Nunca se sabe né, Ana? Vai que acontece =P
      Beijos e obrigada pelo comentário e visita!!

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  4. Adorei o texto, bom demais!
    Amo escritos voltados para a ficção científica.

    Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de junho. Você escolhe o livro que quer ganhar!

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    1. Muito obrigada por prestigiar meu blog e meus escritos :) fico imensamente feliz que tenha gostado! Beijos

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