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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

[Escritora de quinta] E como mudamos...

"Ch-ch-ch-ch-changes..."

É ao som e na vibe desta canção de David Bowie que eu inauguro esta nova seção do Sonhos Empoeirados: Escritora de Quinta. Sim, o trocadilho é proposital. Tem tudo a ver com minhas tão características autodepreciação e autozoação. Bem, a verdade é que não há grande diferença desta seção para a já conhecida A Vida, o Universo e Tudo Mais, além do fato de que esta será postada nas quintas-feiras e, provavelmente, abordará temas mais pessoais e intimistas, ao contrário do A Vida que compreende assuntos mais abrangentes. Veremos... Bora textão de hoje!


Não tive tantos problemas em mudar de casa. Quase nenhum para ser bem franca, além do fato de que estava morrendo de preguiça de colocar as minhas coisas em caixas de papelão. Pensando bem, creio que eu ainda não esvaziei todas aquelas caixas. Mesmo dois anos após a mudança...



Enfim.

Deixei para trás a casa que eu vivi alguns dos melhores momentos da minha vida com algumas das pessoas mais especiais. Algumas que ainda estão aqui, outras que não estão mais. Algumas que tiveram a chance de conhecer minha nova casa, outras que jamais terão a oportunidade de colocar os pés aqui. Tive uma infância maravilhosa com um balanço, uma rede de descanso, uma cesta de basquete e um escorregador. Sem falar daquela palmeira primorosa - e ruidosa em dias de ventania. Cresci naquela casa, ao lado de toda a minha família. Com meus pais e duas irmãs. Uma irmã que se casou e foi viver em outra casa. Um pai que faleceu e foi viver em algum outro lugar que desconheço. Mas me adapto facilmente. Me adaptei tão bem à casa nova, aos novos vizinhos, ao novo bairro... Assim como me adaptei, no passado, às novas instituições de ensino que passei a frequentar. Também não sofri com mudanças de escola.

Adoro sair da rotina e, por isso, amo viajar. Jamais quero voltar pra casa. Quero ficar mais um pouco no hotel, curtir mais as paisagens que os meus destinos me proporcionam conhecer.

Porém, embora não tenha problemas em me deslocar, não gosto de outros tipos de mudanças... Machuca muito perder contato com pessoas, ou deixar de fazer coisas que antes eu fazia. As que fazia por prazer e até mesmo as que fazia por obrigação. Detesto ver certas redes sociais morrendo. Me acostumar com a presença de pessoas diariamente - em ambiente acadêmico ou de trabalho - para depois vê-las com tão pouca frequência. Odeio passar por esse tipo de transições...

Sinto uma nostalgia profunda e dolorosa ao ler antigas conversas que ainda guardo - seja no meu e-mail ou quando solicito meus arquivos do twitter. Sinto falta de como tudo era antigamente. Gostaria que as coisas fossem mais constantes, que as mudanças fossem pequenas, não tão drásticas. Mas isso é impossível.

As mudanças são necessárias. Antes sentir saudade e uma crescente nostalgia do que se foi, do que permanecer sempre na mesma. Seria uma vida entediante.

O meu apego ao passado é muito grande. E, curiosamente, existe desde que eu era muito nova. Nunca compreendi bem a razão de minha nostalgia precoce. Mas tenho procurado exercitar o desapego nos últimos tempos. Do contrário, jamais vou me permitir evoluir adequadamente.

É com um pouco de resistência que mudo - e venho mudando cada vez mais - certos hábitos e determinados aspectos da minha vida. Porém, apesar da relutância, sei o quanto as mudanças são fundamentais. É apenas mudando que podemos seguir em frente e ir mais longe. As mudanças nos levam a lugares impensáveis. Algo que a eterna constância jamais nos proporcionaria.

Nos últimos anos, mudei muito e percebi o quanto errei sem me dar conta.

Há algum tempo, descobri que é essencial aprender a dar adeus, mesmo que machuque.

Assim como descobri que não mudar de opinião nunca, faz de nós seres retrógrados e ignorantes.

Metamorfose ambulante

Já diziam os versos daquele clássico de Raul Seixas:

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante. Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo".

(E aqui abro um parênteses para dizer que já citei Bowie e Raul, o que significa que este post só melhora e inaugurei muito bem esta nova seção :D )

É mais do que irritante quando alguém, com a sutileza de um elefante, te cutuca nas redes sociais ou mesmo pessoalmente com o famigerado "ué, mas antes você não gostava e agora gosta". Ou o contrário: "gostava tanto e deixou de gostar... não é possível". Como se isso fosse um crime. Como se não pudéssemos mudar nunca de opinião. Como se não pudéssemos reavaliar as coisas a fim de decidirmos se, de fato, gostamos ou não. Melhor ainda: se continuamos a gostar ou não.

As pessoas podem mudar de opinião. Aprender a gostar do que não gostavam. Desgostar do que já gostaram. Não há nada de errado nisso. Não consigo me imaginar com os mesmos gostos e preferências de quando tinha 11 anos. Ou 17, ou 21, ou 23... Algumas coisas, sim. Outras, não. Nada mais terrível do que a ideia de não mudar, de permanecer sempre com os mesmos interesses. De ter uma opinião formada e carregá-la para o resto da vida. Às vezes a gente gosta/não gosta por desinformação. Nutrimos interesse por algo ou alguém e, depois de conhecermos melhor, nos desinteressamos. Ou vice-versa.

Se você nunca muda de opinião, então só pode estar morto em vida. Somos seres mutáveis e é extremamente normal que reavaliemos nossos conceitos, mudemos de ideia ou, depois de algumas conversas, discussões e mesmo novas avaliações, comecemos a analisar as coisas por outro ângulo, sob outro prisma, um novo ponto de vista. É saudável reconhecer que estávamos errados. Que as coisas, simplesmente, caiam ou subam no nosso conceito. Sou do tipo que aprende a gostar das coisas com o tempo. Todas as minhas grandes paixões já foram alvos de meu preconceito em alguma fase da vida. Mudar faz parte da nossa essência, da nossa natureza e, principalmente, da nossa evolução.


Inerte, você nunca vai a lugar nenhum. O mundo muda e você não pode se recusar a aceitar as mudanças. Essa inércia somada à resistência em adotar uma opinião diferente daquela antiquada ou equivocada de outrora, te leva à ignorância. Você segue olhando para a frente sem nunca olhar para os lados, sem jamais pensar na possibilidade de seguir por outro caminho.

Posso dizer seguramente que, nos últimos anos, os momentos que mais me trouxeram aprendizado, foram aqueles nos quais decidi rever meus conceitos, repensar e reavaliar minhas ditas opiniões formadas. Foram aqueles nos quais parei para pensar se não deveria adotar outra linha de raciocínio, me esquivar de alguns ideais idiossincráticos e, por fim, reconhecer que eu estava mesmo errada. Só errando é que podemos acertar. É a prática que nos leva à perfeição. Portanto, não tenha medo de mudar. Faz bem ;)

Aproveito e indico uma animação maravilhosa do Studio Ghibli ('maravilhoso' e 'Studio Ghibli' na mesma frase é quase um pleonasmo), que fala exatamente sobre isso: o medo de mudanças e o difícil processo de adaptação. Trata-se de A Viagem de Chihiro do Hayao Miyazaki, que eu creio que todo mundo já deve ter visto. Mas, se você está entre os que ainda não assistiram a esta pequena pérola, o que espera para ver?

*Salut*

Um comentário:

  1. Vibrei com seu texto. Me fez refletir muito. Eu odeio a rotina.
    Vou assistir esse desenho que você recomendou.

    http://www.jj-jovemjornalista.com/

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