Páginas

sábado, 26 de novembro de 2016

[Café com páginas] Fumaça e Espelhos - Neil Gaiman


Algumas vezes, a única maneira de saber que uma história tinha acabado era quando não havia mais palavras a serem escritas.


Já na introdução de sua antologia de contos, Neil Gaiman nos presenteia com o magistral O Presente de Casamento. Inteligente, instigante e, por fim, melancólico, esse conto, que surge de maneira inusitada, escondido na introdução (ideia acidentalmente inspirada em Gene Wolfe, um dos autores favoritos de Gaiman), é apenas uma amostra do brilhantismo que encontramos ao avançar as páginas. 

A coletânea é composta por 31 contos e poemas escritos entre as décadas de 1980 e 1990, nos quais o autor parece esmiuçar o lado não contado das histórias que fazem parte do imaginário popular, quase sempre com foco em criaturas míticas, fábulas e clássicos da literatura. Gaiman nos apresenta um outro ângulo do amor, da morte, da fantasia, do sexo, da tecnologia, da vida em sociedade e dos rituais rotineiros. E todos surpreendem pela inventividade e pelo quão diretos e objetivos conseguem ser. Gaiman trafega pelo seco e pelo lírico e por uma diversidade de temas e estilos: vai da literatura fantástica ao terror, passeando pela poesia e até mesmo pelo conto erótico.

Um de meus favoritos é O Lago dos Peixes Dourados e Outras Histórias sobre a adaptação de um livro para o cinema. Delicioso conto, repleto de personagens curiosos, que mostra que a memória em Hollywood é tão curta quanto a memória dos peixes. Tudo dura trinta minutos em Los Angeles. Com seu característico tom de autossátira, transbordando ironia, Gaiman relata a jornada para transformar Os Filhos do Homem, um livro sobre os filhos de Charles Manson, em filme, e todas as burocracias que envolvem o projeto. Chega a um ponto em que os produtores mexem tanto no material que o tornam disforme, totalmente distinto da obra original.

Dentre outros contos primorosos destacam-se o excelente Arremate por Atacado (sobre a mania de Peter Pinter pechinchar, as mágoas que guardou ao longo da vida e matadores de aluguel), Mistérios de Assassinatos (uma trama investigativa que relata um curioso homicídio envolvendo anjos), Bolinhos de Bebês (uma crítica ácida à humanidade, que narra um futuro em que experimentos cruéis passam a ser realizados com bebês após o desaparecimento dos animais) e Neve, Vidro e Maças (uma subversão do tradicional conto da Branca de Neve, que pode ser definido como uma releitura macabra, na qual a protagonista é uma vampira).

Mesmo que tenha experimentado e se aventurado pelos mais diversos gêneros nas obras reunidas nesta coletânea, o estilo de Gaiman é inconfundível e incomparável. Não há um conto ou poesia sequer neste livro em que você não reconheça o autor. Ele está sempre lá, com sua ironia, seu humor cruel, seus personagens cínicos, sua mania de revisitar o passado, o clássico, e adaptá-lo para a atualidade. 

Outra obra inesquecível de Gaiman.

Quotes:

“Há palavras que fazem coisas com as pessoas, palavras que levam rostos a se ruborizarem de prazer, entusiasmo ou paixão. Ambiental pode ser uma; oculto é outra. Atacado era a palavra de Peter”. (Arremate por Atacado)

"Depois do banho, Richard enxugou-se e vestiu-se apressadamente; tinha de voltar a um livro, um mundo perdido a retomar".
(...)
"As pessoas sempre anunciavam coisas que ele não percebia. O menino costumava chegar em aulas vazias, perder jogos organizados, ir para a escola em dias que todo mundo tinha ido para casa. Às vezes, sentia que vivia num mundo diferente de todo o resto".
(...)
"Richard não tinha problema em guardar segredos. Nos últimos anos, percebera que era um repositório ambulante de velhos segredos, segredos que seus confidentes originais tinham provavelmente esquecido há muito tempo". (Uma vida, gestada nos primeiros trabalhos de Moorcock)

"Talvez eu tenha acordado à noite, repentinamente,
[compreendendo alguma coisa;
estendo o braço,
rabisco nas costas de uma velha nota
minha revelação, minha recém-descoberta compreensão,
sabendo que a manhã vai renderizá-la prosaica,
sabendo que a mágica é uma coisa da noite,
e, então, lembrando-me quando ainda era...
A revelação retrocede ao clichê, ouça:
As coisas pareciam mais simples antes de termos computadores" (Cores Frias)

"Se for verdade que, a cada sete anos, toda célula de seu corpo morre e é substituída, então, eu de fato herdei a vida de um homem morto — as más ações daqueles tempos foram perdoadas, e estão enterradas com seus ossos".
(...)
"A memória é uma grande trapaceira. Talvez haja pessoas nas quais as lembranças agem como uma fita de gravação, registros diários de suas vidas completas em cada detalhe, mas eu não sou uma delas. Minhas recordações são uma colcha de retalhos de ocorrências, eventos desconexos costurados toscamente. As partes de que me lembro são precisas, enquanto outras seções parecem ter desaparecido por completo". (Mistérios de Assassinatos)

Nenhum comentário:

Postar um comentário