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domingo, 16 de fevereiro de 2014

[Filme aos domingos] Frances Ha


A temática de Frances Ha nos remete à série Girls da HBO. Mas, felizmente, Frances é muito mais simpática e divertida do que a Hannah com seu eterno narcisismo e exagerado senso de autoimportância. Frances, em contrapartida, não é nada disso. É desajeitada, sente-se excluída, tem dificuldade em praticar o desapego, além de possuir baixa autoestima. Ela é uma bailarina, mas longe daquele estereótipo de perfeição, requinte e delicadeza das bailarinas ao qual nos acostumamos. Frances é uma garota comum e bastante descoordenada, o que é um paradoxo. 
 
A embalagem, a princípio, dá a ideia de um longa inacessível para o grande público. Um filme indie com fotografia em preto e branco. Mas a identificação imediata com a protagonista desfaz rapidamente essa impressão equivocada. Algo que o diretor Noah Baumbach já havia deixado claro em A Lula e a Baleia, é que, em seu cinema, a aproximação do espectador com os personagens acontece por conta das situações vivenciadas, como uma conversa sincera entre um e outro, como um compartilhamento de experiências. O filme é um retrato bem direto do início da vida adulta, com diálogos honestos, personagens deslocados e não necessariamente belos, com dramas comuns inerentes a todos nós. E é por isso que ocorre essa empatia. 

Se o medo e a renúncia em crescer já era um problema que a personagem-título tentava disfarçar a qualquer custo com justificativas banais, quando sua melhor amiga, Sophie, deixa o apartamento em que elas vivem juntas por conta de uma vaga de emprego em um lugar melhor, isso se torna ainda mais aparente. Dessa forma, tendo de dividir um apartamento com outras pessoas, ela tenta buscar a mesma conexão que tinha com Sophie. Sem sucesso. Aliás, sua vida parece ser composta apenas de  malfadados eventos que se sucedem ao longo da narrativa.

Ela tenta se encontrar voltando para casa e se reaproximando de seus pais e de suas origens. Depois, fazendo uma curta viagem à Paris em que nada dá certo. Em seu silêncio, reflete sobre as oportunidades que perdeu e, quando ela fica sabendo por intermédio de outros o que sua antes inseparável amiga anda fazendo da vida, em sua expressão de espanto é notório que ela está tentando procurar respostas para o motivo de a amiga se afastar dela e excluí-la de decisões importantes acerca do futuro. É engraçado como você se sente tentada a interagir com a personagem, como acenar para os pais dela na hora em que ela se despede no aeroporto ou querer se sentar ao seu lado numa troca de desabafos a respeito dos fracassos nossos de cada dia.
 
Fugindo dos clichês e padrões do cinema indie que o tornou, nos últimos anos, pretensioso e formulaico, Frances Ha trata-se de um filme belo e melancólico, que ressalta a ideia de que não podemos fugir por muito tempo das responsabilidades, dos deveres, da obrigação de amadurecer, de quem definitivamente somos. 
 
A cena final em que a protagonista finalmente consegue o que tanto almejava, aquele momento especial com outra pessoa, é lindíssima e a trilha sonora é perfeita. É uma canção de David Bowie que ilustra o melhor momento do longa - a cena em que Frances corre pelas ruas ao som de Modern Love, que dá vontade de reprisar mil vezes de tão deliciosa que é.

Posso dizer seguramente que Frances Ha foi o meu filme de 2013.

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