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domingo, 9 de fevereiro de 2014

[Filme aos domingos] Edifício Master


Depois de um hiatus de três semanas, entre viagens e outros assuntos familiares que me forçaram a ficar longe do blog, cá estou novamente com um filme para se curtir neste domingo.

O último dia 2 de fevereiro foi triste para os amantes da sétima arte. Nos despedimos de um ator grandioso, Phillip Seymour Hoffman, que partiu aos 46 anos, deixando mulher, três filhos e uma carreira brilhante, permeada de personagens marcantes como Lancaster Dodd (O Mestre) e Truman Capote (Capote) que lhe valeu um Oscar de melhor ator em 2005. Assim como ocorreu com o talentoso Heath Ledger e o promissor Cory Monteith (só para citar casos mais recentes), sua morte foi consequência do uso abusivo de drogas.

Outro triste fim teve o cineasta e documentarista Eduardo Coutinho, de 81 anos, que dirigiu os brilhantes Jogo de Cena e Edifício Master. O filho de Coutinho, que possui problemas mentais e sofre de esquizofrenia, matou o próprio pai a facadas, tentou matar a mãe (que foi internada em estado grave no hospital) e, depois, tentou o suicídio. 

Perdas irreparáveis. Ambos, em seus melhores momentos na carreira. Não tem como não dizer que eles farão falta.

Edifício Master é um fascinante estudo de personagens da realidade cotidiana. Tendo como cenário um tradicional edifício localizado em Copacabana, no Rio de Janeiro, o documentário reúne uma série de entrevistas reveladoras e tocantes de seus residentes. São histórias que cativam a atenção do espectador. Coutinho registra tudo de forma crua, direta e sem floreios. E mesmo assim, possui um lirismo inconfundível, típico das obras do cineasta. O que impressiona é a diversidade de personagens que moram no edifício, bem como a diversidade de emoções que transmite ao espectador. A unidade em comum é o fato de residirem no mesmo local, mas suas origens e idades e experiências de vida são o que os distinguem uns dos outros. Na verdade, a maioria ali sequer se conhece e raramente se esbarram. Estão próximos e distantes uns dos outros. Tanto no que diz respeito ao espaço, quanto às suas essências e discursos em frente às câmeras.

Eu nunca morei em apartamento, mas sempre que frequentava os apartamentos de parentes ou amigos da família, se manifestava em mim aquela curiosidade a respeito das pessoas que dividiam o edifício com meus familiares ou conhecidos. Quem eram aqueles sujeitos que tomavam o mesmo elevador que eu? Ou que eu via saindo de seus apartamentos enquanto eu estava indo visitar quem quer que fosse? E, de suas janelas, lá no alto, eu espionava a vida lá embaixo, ou a vida dos moradores dos prédios da frente. Via o interior de suas casas, observava a decoração. Quando assisti Janela Indiscreta, de Hitchcock, compreendi a obsessão do personagem de James Stewart. Nutrimos natural e inevitavelmente essa estranha curiosidade pela vida dos outros. Suas características, manias, similaridades e distinções.

O documentário de Eduardo Coutinho sacia essa curiosidade aos nos apresentar pessoas com tantas nuances em suas personalidades, o que transforma a obra em um profundo e intimista estudo do ser humano, focando nas  diferentes pessoas que habitam o mesmo edifício, nas batalhas pessoais que elas travam todos os dias ao longo de suas singelas vidas. Além disso, explora o espaço em que se desenvolve a ação com um interesse genuíno, nos transmitindo seu fascínio pelo lugar em questão. O olhar do documentarista desperta no espectador também este entusiasmo em absorver o quanto puder das realidades fragmentadas e experiências narradas na tela, buscando a aproximação e, por que não, a identificação? Queremos conhecer mais e mais daquelas pessoas, indivíduos tidos como "marginalizados" pela sociedade, mesmo morando em um edifício situado em um bairro nobre. Coutinho sabia como prender a atenção do espectador com histórias simples, mas profundas. Ele retratava o humano com sensibilidade e sem distorções, nos fazendo lembrar do quanto as pessoas são complexas e possuem, cada uma, seu encantador universo particular.

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