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terça-feira, 2 de setembro de 2014

[78 Rotações] Hoje eu joguei tanta coisa fora... ♫


♫ Hoje eu joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias, gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim 

Estes são os primeiros versos da canção Tendo a Lua da banda brasiliense Os Paralamas do Sucesso. O compositor e líder da banda, Herbert Viana, descreveu precisamente como é a minha vida uma vez por semana. Eu estou sempre fazendo limpezas gerais no meu quarto. E tem quem se pergunte: precisa mesmo fazer isso toda semana? Bem, precisa. Quase sem perceber, vou acumulando coisas inúteis, dentre papéis, garrafinhas d'água ou suco, envelopes, embrulhos de presente, tubos de caneta, latas e caixas. Volta e meia encontro algum aparelho eletrônico antigo e que já não uso há eras. Vou juntando tudo em sacolas de plástico, separando o que é reciclável do que não é, para depois depositar na enorme caçamba de lixo que fica à direita do portão do meu condomínio. 

Depois que termino a limpeza e a arrumação, gosto de dar uma boa olhada no meu quarto e constatar como Herbert Viana estava certo: o meu quarto fica bem melhor assim, sem as coisas antigas e inúteis que estavam se acumulando em um canto qualquer do meu guarda-roupa, em alguma prateleira da estante, nas gavetas que eu passo dias sem abrir. 

Outro ponto positivo de fazer limpezas gerais e me livrar das coisas velhas é o fato de que sempre encontro dinheiro perdido pelos meus bolsos e bolsas. Desde moedas de valor quase insignificante até o cúmulo de uma nota de cinquenta reais. Como é possível esquecer notas de cinquenta reais em um bolso de um velho casaco e nem sentir falta? Eis uma pergunta, dentre tantas outras, para a qual eu não tenho uma resposta.

A verdade é que tenho uma incrível facilidade para me desapegar de coisas. É uma pena não ter a mesma facilidade quando se trata de pessoas. Já devo ter comentado em algum lugar (se não deste blog, pelas minhas redes sociais) que sou do tipo que dá chances demais às pessoas mesmo quando elas me magoam e decepcionam constantemente. Perdoo um sem-número de vezes. Passo anos tolerando mentiras, chantagens emocionais, e escondendo que sei que a pessoa fala mal de mim pelas costas com suas amigas que me detestam de graça. 

Esqueço que pessoas que falam mal de todo mundo para mim, com certeza devem falar mal de mim para todo mundo. 

Valorizo demais o que já vivi com aqueles que me desapontaram. É muito difícil simplesmente apagar da memória que tivemos um passado, uma história, coisas legais que partilhamos. Então, opto pela decisão mais complicada: a de tentar sufocar as mágoas e decepções que a pessoa me provocou. Tentar valorizar as coisas boas que vivemos juntas em detrimento das ruins que ela me fez passar e sofro em silêncio.

Um erro terrível. Pois o ser, se aproveitando desta minha característica que fica numa tênue linha (ou corda bamba) entre a qualidade e o defeito, só tende a piorar. Sabe que vai ser perdoado, mais dia menos dia, então continua a fazer o que sabe que vai me machucar de uma forma ou de outra. 

Amigos leais e verdadeiros me dão chacoalhões o tempo todo: como você, que eu julgava uma pessoa inteligente e madura, consegue ser tão boba e ingênua?

Não sei. Tenho uma fraqueza incompreensível quando se trata de relacionamentos que são uma via de mão única. E estes, estão sempre ali, com suas palavras bonitinhas, mas mentirosas. Suas falsas declarações de afeto nas redes sociais.

Mas embora eu leve anos para me desfazer destas pessoas e tirá-las definitivamente da minha vida, uma hora isso acaba acontecendo. Sei que o processo é lento, mas mesmo eu, o cúmulo da tolerância, em algum momento me farto de ser o saco de pancadas. Quando finalmente desapego, não olho mais para trás, é um adeus definitivo. Evito pensar nelas, nas coisas boas que vivi com elas, nos momentos e demonstrações de afeto que julguei verdadeiros, mas não passaram de puro interesse ou conveniência. Eu realmente excluo da minha vida.

Grande coisa, não é? Depois de tudo o que passei, tomar uma atitude destas nem pode ser considerado algo admirável. É, sinceramente, um ato tardio. 

A canção dos Paralamas sempre serve como trilha para minhas limpezas gerais, sempre embalando as minhas arrumações. Não se trata nem de ser inevitável, é automático mesmo cantar esses primeiros versos (com os quais dei início a este post) cada vez que arrumo meu armário, minhas estantes, a cabeceira da cama, a mesinha do computador... 

Porém, ontem, ao notar que, desprovida de qualquer sentimento de tristeza ou nostalgia, joguei fora cartas, cartões e fotos de pessoas que foram embora, aliás, que eu mandei embora (ainda que tardiamente), percebi que dei um salto. Talvez eu tenha realmente evoluído. Ou me tornado mais fria... Alguma vez, aquelas cartas e fotos já me fizeram sofrer (por mais cafona que essa frase tenha soado). ontem só consegui ver uma compilação de mentiras e mais mentiras que me pegaram despreparada para uma súbita gargalhada que surpreendeu a mim mesma. 

Foram para o lixo. Sem dor. Sem amor. Sem qualquer outro sentimento. Apenas a sensação de alívio e de alegria por não sofrer desnecessariamente por quem nunca de fato gostou de mim.

Ontem compreendi melhor a música dos Paralamas... Joguei tanta coisa fora... Cartas e fotografias, gente que foi embora... a casa fica bem melhor assim. Não se trata apenas de jogar coisas fora, mas nos livrar também das lembranças de quem foi embora. Não daqueles que partiram e deixaram aquela saudade dolorosa que nos apanha em momentos inesperados, em uma hora qualquer do dia - aqueles pelos quais faríamos qualquer coisa para tê-los ao nosso lado novamente. E, sim, daqueles que foram embora porque não tiveram uma nova oportunidade (depois de tantas desperdiçadas). Aqueles que foram por não saberem valorizar e retribuir o companheirismo, a parceria, a amizade que ofertamos tão genuína e honestamente um dia.

O quote do filme Closer fica martelando em minha cabeça: Eu teria te amado pra sempre. Mas como não houve reconhecimento e valorização, a minha vida fica bem melhor assim.


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