Páginas

domingo, 28 de setembro de 2014

[Filme aos domingos] Ghost - Do Outro Lado da Vida


Graças ao maravilhoso projeto do Cinemark, de exibir filmes clássicos nos cinemas da rede, minha irmã e eu já tivemos a oportunidade de conferir alguns de nossos títulos favoritos na telona, no meio para o qual eles foram originalmente destinados. Dessa forma, pudemos realizar o sonho de ver Laranja Mecânica, Taxi Driver, Pulp Fiction e Chinatown no cinema. Assim que foram anunciados os filmes que fariam parte da terceira temporada do Clássicos Cinemark, minha irmã e eu fomos correndo conferir para já deixar os domingos livres de quaisquer outros compromissos a não ser sentarmos em bem selecionadas poltronas e curtir um ótimo filme na tela grande. Para a nossa surpresa, o inesperado sucesso assinado por Jerry Zucker, vencedor de dois Oscars em 1991 e reprisado incansáveis vezes na Sessão da Tarde, Ghost - Do Outro Lado da Vida, fazia parte da lista. E esse é simplesmente o filme favorito da minha mãe. Obviamente ela não pensou duas vezes e, na sexta-feira, já tínhamos os ingressos em mãos. Ainda que estivéssemos bastante cansadas devido à comemoração atrasada do meu aniversário ontem, sábado - que se estendeu para bem depois da meia-noite - decidimos sair de casa em um domingo de ruas mortas e enfrentar uma pequena viagem de cerca de 45 minutos até o centro de Curitiba para realizar um dos sonhos da minha mãe: ver Ghost no cinema.


Confesso que mesmo tendo assistido um milhão de vezes pela televisão, não lembrava de boa parte do filme. E até me surpreendi com a qualidade narrativa e visual da película. Basicamente o longa acompanha Sam Wheat (Patrick Swayze) e Molly Jensen (Demi Moore), um casal extremamente fotogênico que tem sua história de amor tragicamente interrompida (pelo menos no plano físico) após Sam ser assassinado em uma tentativa de assalto. Mesmo assim, ele não consegue partir definitivamente para o outro mundo, pois ainda tem uma última missão a cumprir na Terra: proteger Molly de um grande perigo, uma vez que o tal assalto que culminou em sua morte não foi por acaso. 

Pois bem, Ghost trata-se essencialmente de um romance, mas flerta com o suspense, o drama e a comédia em diversos momentos. Tudo muito bem dosado, sem jamais perder o escopo. A fotografia é um item admirável. Filmado com destreza, os movimentos de câmera e enquadramentos inteligentes dão um tom elegante ao longa além de, claro, convencer na construção de um mundo onde mortos tentam fazer contato com os vivos - estando sempre lado a lado, mas sem conseguirem ser vistos ou ouvidos. Neste quesito, a montagem também desempenha um papel fundamental. Todo o processo de adaptação e aprendizagem de Sam ao se tornar um fantasma e descobrir do que é capaz, é bem desenvolvido, dando um ritmo agradável e interessante à narrativa. Outro ponto que não posso deixar de mencionar é o elenco de coadjuvantes e algumas pontas memoráveis. Em seu caminho, já como fantasma, Sam cruza com um adorável velhinho que explica a ele vagamente o que está acontecendo na ótima sequência do hospital. O saudoso Vincent Schiavelli aparece aqui como um dos personagens emblemáticos, o fantasma do trem. Mas o destaque maior é mesmo Whoopi Goldberg, na pele da charlatã Oda Mae Brown que passa a se comunicar com o protagonista e ouvir outras vozes do além, garantindo excelentes momentos cômicos (o papel lhe rendeu uma merecida estatueta de atriz coadjuvante no Oscar). Aliás, é muito bacana essa construção de personagens que, mesmo soando um tanto convenientes, são trabalhados de uma forma tão precisa e acertada que só colaboram para tornar o filme melhor do que se podia esperar. Outra sacada esperta do roteiro é a figura do melhor amigo do casal, vivido por Tony Goldwyn. Um plot twist genial que realmente pega o espectador de surpresa.

Mas claro que nem tudo o que reluz aqui é ouro. Patrick Swayze era um galã esforçado. Convence no papel mais devido ao biótipo do que necessariamente ao talento interpretativo. O histrionismo e o jeito caricato do ator prejudicam a cena em que ele vê o próprio corpo sem vida nos braços da amada, não produzindo metade do impacto que deveria gerar. Ele melhora ao longo do filme, mas não consideravelmente. Demi Moore também não tem nenhum grande momento, mas empresta graça e charme à mocinha que combina uma aparência tomboy com um ar frágil e sensível. A clássica sequência em que o casal molda um vaso de barro, em minha obscura opinião, é de um mau gosto incalculável. Sei que é considerada uma das cenas mais bonitas e românticas da história do cinema, mas sempre considerei uma metáfora de gosto duvidoso. Pelo menos o delicioso chiadinho do vinil tocando na vitrola mais do que compensa. Segue uma cena de muitos toques e beijos que não é nada mais do que uma desculpa para que a bela Unchained Melody interpretada pelos The Righteous Brothers toque na íntegra. Daí eu não posso reclamar. O mesmo não posso dizer com relação aos efeitos especiais. Os espíritos das trevas são um tanto quanto constrangedores atualmente. E, pra completar, a edição de som não ajuda em nada nesse caso. Algumas metáforas visuais soam forçadas (o anjo que se despedaça), mas a referência a Macbeth, por outro lado, é um achado. 

Há uma frase que Sam diz ainda no início do filme que evidencia o rumo que a história pretende tomar: o fatalismo. Algo no estilo "sempre que as coisas estão indo muito bem, algo dá errado". Sim, isso funciona dado o contexto e enredo do longa, e talvez este não desse certo de outra forma. Porém, o maniqueísmo acaba sendo o ponto fraco do filme - a velha história dos bonzinhos merecem a luz, os maus merecem as trevas. Claro, isso é o que o público quer ver, e ainda que por meios tortos, Zucker acerta outra vez. Mas quando analisado profundamente, parece uma alternativa um tanto quanto simplista. Sem falar nos questionamentos que podem surgir a partir disso. É um filme que tem o espiritismo como sua espinha dorsal e, se Hollywood desde sempre aceita narrativas acerca de personagens que desenvolvem superpoderes através dos métodos mais surreais, qual é o mal de fantasmas que tem o poder de interferir na vida daqueles que fazem parte do mundo material? Desde que seja apenas ficção, não é necessário explicar muito. Entretanto, a religião defende essa tese de que aqueles que partiram tem, assim, tanto poder e influência sobre nossas vidas e decisões de um modo quase implacável? Bem, aí já é outra história. E como o meu entendimento sobre o assunto é escasso, melhor me concentrar no filme em si, seus notáveis méritos artísticos, cinematográficos... 

A cena que encerra Ghost é magistral. Não apenas por ser inegavelmente bela, mas pela sábia decisão do roteiro em não estender a história com a adição de um epílogo desnecessário. O filme acaba exatamente quando e onde tem que acabar e, nesse caso, no clímax. Não há tempo para limpar as lágrimas antes das luzes se acenderem. Sem muitos diálogos expositivos e declarações de amor melosas, Zucker optou por um puro, suave e triste beijo final e a frase "O amor verdadeiro levamos conosco". E essa frase não poderia estar mais correta. Não importa de que natureza seja esse amor, nós o levamos conosco pelo resto de nossas vidas e o filme transmite a mensagem de que o levaremos para além, para a eternidade. Por isso a identificação é inevitável. Quando Sam caminha rumo à luz, só quem já passou pela dolorosa experiência de perder alguém é que é capaz de compreender totalmente o quão agridoce é aquela despedida.

Minha mãe sempre esteve certa. 

Ditto ;)

Nenhum comentário:

Postar um comentário