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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

[Café com páginas] Encontro Com Rama e Old City Blues




Encontro Com Rama 

Clássico da ficção científica, escrito por um dos mestres do gênero, Arthur C. Clarke, na década de 1970. Clarke é o autor do conto The Sentinel que inspirou a obra-prima de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisséia no Espaço. Situada no ano de 2131, a trama de Encontro Com Rama narra a aparição de uma estranha estação espacial que possui um peculiar formato cilíndrico e 50 km de comprimento, sendo, a princípio, confundida com um asteroide. Batizada em homenagem a uma divindade hindu (uma vez que os nomes da mitologia greco-romana, para denominar corpos celestes, já haviam se esgotado), sua chegada é envolta em mistério: O desconhecimento acerca de sua trajetória e objetivos vem acompanhado de muita preocupação e controvérsia. A tripulação da nave Endeavour é, então, encarregada de descobrir mais a respeito da intrigante nave. Porém, à medida que avançam na exploração de Rama, se deparam com mais perguntas do que respostas. Além do formato e de suas dimensões hiperbólicas, a atmosfera de Rama é respirável; há criaturas robóticas designadas para cumprir funções específicas, sem se importarem com a presença de humanos ou representarem algum tipo de ameaça; fenômenos climáticos impressionantes; e possui estruturas que lembram muito as metrópoles terrestres. Enfim, o cenário é tão extraordinário que provoca um fascínio sem par nos exploradores. No meio do caminho, entretanto, a Endeavour precisa lidar com a resistência de Mercúrio que acredita que a meta de Rama é aniquilar outras civilizações. O livro é bastante indicado para quem está começando a se aventurar pelo gênero sci-fi – apesar de recorrer a um amplo espectro de termos científicos e descrições detalhadas das condições ambientais de Rama, a linguagem é bem compreensível; não é didático, mas também não subestima a inteligência do leitor. A narrativa é fluida, breve (a edição que eu li tem apenas 190 páginas) e envolvente. Os capítulos são objetivos, fazendo pausas pontuais e estratégicas na leitura, de forma que o ritmo não oscila em nenhum momento, sendo uma trama bem ágil e direta, deixando o leitor cada vez mais intrigado para os enigmas e revelações que virão a seguir. Além disso, possui quotes e diálogos inteligentes e, por vezes, um humor sagaz, com um leve tom de ironia. A trama apresenta paralelos interessantes do episódio de Rama com grandes descobertas históricas e faz alusão, também, aos líderes políticos mundiais ao introduzir os componentes dos Planetas Unidos (estes capítulos são, particularmente, divertidíssimos). Os personagens não são muito profundos, pois o principal foco do livro é na missão. Contudo, isso não representa um demérito. Clarke economiza em diálogos e no desenvolvimento de personagens, mas não poupa vocábulos para narrar os fatos, cada pormenor da exploração em si. Isso sem tornar a leitura enfadonha. Muito pelo contrário. Deixa a impressão de se estar acompanhando a missão ao interior de Rama como em uma reportagem especial. Sobretudo, destaca-se a composição inventiva de seu cenário. O autor é meticuloso e exato ao delinear Rama, se preocupando em embasar cientificamente cada detalhe e transmitir todo o seu esplendor em cada parágrafo. O final deixa um sabor de quero mais, afinal são poucas respostas e explicações, de modo que o objetivo, as origens e a natureza de Rama permanecem enigmáticos. Mas vale a pena para começar a conhecer o trabalho de um autor de fundamental importância para o gênero. Encontro com Rama é uma obra fantástica e de precisão científica incomparável.

Old City Blues

Com influências que saltam à vista de imediato – como Blade Runner e Akira, a HQ Old City Blues é ambientada em um futuro pós-apocalíptico, e mescla cyberpunk com thriller policial, recorrendo a alguns lugares-comuns de ambos os gêneros. A trama acompanha o trabalho do detetive Solano, que integra a divisão especial da polícia de New Athens, e faz o possível para manter a ordem em uma cidade mergulhada no crime, corrupção, tráfico de drogas, contrabando e cercada por poderosas corporações em pleno ano de 2048. A metrópole New Athens foi construída sobre as ruínas do que, outrora, era a Grécia. Apesar desta ambientação atraente já pela descrição, Old City Blues não é necessariamente inovadora em termos narrativos, mas trata-se de uma obra envolvente mesmo assim. Contudo, a arte é primorosa, conta com um traço rebuscado, preciso na representação de uma atmosfera caótica e apresenta um dos preto e branco mais bem trabalhados que vejo em muito tempo. Os personagens não oferecem muita complexidade, mas tem seu carisma. O herói da história, o detetive Solano, que estampa a capa, é bem o que se espera de um personagem central de um thriller cyberpunk. E, como não poderia deixar de ser, o vilão hi-tech megalômano está lá. Os diálogos espertos e a agilidade e energia da narrativa ajudam Old City Blues a passar uma boa primeira impressão a despeito de alguns clichês e da ausência de um roteiro realmente original. Mas só pela arte e conceito – prometendo tramas mais instigantes nos próximos volumes – já indico a leitura. Para completar, tem uma história bônus e, nas últimas páginas, conhecemos mais a respeito do autor, Giannis Milonogiannis, de apenas 26 anos, em uma minibiografia em quadrinhos na qual ele revela suas influências (atente para a imagem emblemática de Blade Runner!), o processo de produção de Old City Blues e como começou sua carreira na nona arte. Apesar de alguns recursos manjados, esta HQ ciberdistópica é mais do que recomendada.

4 comentários:

  1. As duas resenhas estão incríveis. Gostei dos dois títulos, principalmente do segundo.

    http://www.jj-jovemjornalista.com/

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  2. Olá,
    Adorei as resenhas, não costumo muito ler livros desse gênero, mas me interessei especialmente pela HQ, ando viciada nesse tipo de livro!
    Beijos.
    Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

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  3. Adoro ficção científica, mas tenho que me atualizar com os clássicos, obrigada pela dica ♥

    http://gotasdecaffe.blogspot.com.br

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  4. Oi Andrizy, tudo bem?

    Achei bem bacana os livros, porém não tenho muito habito de ler Ficção Científica. Até o momento eu li poucos.

    Bjos

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