Páginas

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

[Escritora de quinta] Ignorando o inferno astral, curtindo a chuva e apreciando dois amores

Bora mais um dia?
Setembro começou chuvoso. Já no primeiro dia do mês, aqui onde eu moro, uma virada brusca no tempo - um plot twist climático - fez com que o sol se escondesse repentinamente e um vento forte e uma garoa constante (que não demorou para se converter em chuva) surgissem, assim do nada. Detalhe que eu inventei de ir de saia e salto alto para o trabalho. Isto quer dizer que, além de passar frio, corri o risco de escorregar nas ruas e calçadas molhadas e enlameadas no caminho de volta para casa, após o expediente. 

Foram os primeiros indícios de meu suposto inferno astral.

Ele já foi mais presente em anos anteriores, confesso. De discussões exaltadas e brigas terríveis que nem gosto de relembrar até acidentes moderados e tentativas de assalto. Tenho uma lista impressionante de 'pequenas tragédias' que ocorreram próximas à data de meu aniversário.

Talvez essa história de inferno astral seja bobagem. Pode ser que tudo não tenha passado de mera coincidência...

Conheço muita gente que acha que inferno astral é baboseira. Assim como tantas pessoas que não acreditam em coincidências. E eu, como a boa libriana que sou, fico em dúvida... Oras, que isso? Também não acredito em horóscopo. Se bem que sou tão indecisa... 

Enfim. Falando nisso, ainda hoje comecei, de fato, a ler  Praticamente Inofensiva, o quinto e último volume da 'trilogia de cinco', O Guia do Mochileiro das Galáxias. E um quote em especial me chamou a atenção. Eu já tinha em mente a ideia de escrever este texto desde hoje de manhã (já explico a razão), mas estre trecho combinava tão precisa e perfeitamente com o post, que eu tive de discordar dos amigos que não acreditam em coincidências. Aliás, discordei duas vezes hoje. A primeira quando fui buscar a segunda via do meu RG e me dei conta que a data de expedição era 26 de agosto de 2015. Na primeira via, a data era 26 de agosto de 2005. Exatos dez anos antes. Foi realmente o dia das coincidências, que me desculpem os céticos. Sem mais conversa fiada, vamos ao quote:
Acontece com todos nós. A cada momento de cada dia. Cada decisão que tomamos, cada vez que respiramos, abre algumas portas e fecha várias outras. Não percebemos a maioria, mas notamos algumas. Acho que você percebeu uma delas.
Ele é proferido pela personagem Gail Andrews, que é astróloga na história. E contém uma verdade. A vida está repleta de oportunidades. Cada segundo é uma nova escolha, uma chance diferente de mudar ou permanecer na mesma. 

A ideia deste post surgiu logo pela manhã de hoje, como já mencionei anteriormente. Poucos minutos antes de sair para o trabalho e, aproveitando o embalo, deixar meu sobrinho na escola, uma forte chuva despencou. Olhei pela janela, desolada, e exclamei: "que sorte nós temos hein, Eloy?" Ele não se importou em concordar ou discordar. Continuou tagarelando a respeito da graphic novel do Homem-Aranha que estava lendo enquanto eu terminava de me arrumar. Vocês (três leitores fieis deste humilde blog) já conhecem a obsessão dele por super-heróis, não é mesmo

Assim que proferi a sentença, devidamente reproduzida no parágrafo anterior, parei para ponderar as minhas palavras. Por que chuva seria, necessariamente, sinônimo de azar? Meu sobrinho e eu estávamos munidos de bons guardas-chuvas, agasalhos quentinhos e, convenhamos, são apenas cinco minutos de caminhada da minha casa até o trabalho. E também até a escola do meu sobrinho, uma vez que ela fica localizada exatamente atrás do prédio da prefeitura onde trabalho. E ainda tem o plus de apreciarmos demasiadamente a companhia um do outro. Meu Eloy e eu temos muito em comum. 

Assim sendo, por que não deixar as reclamações, os resmungos e a ranzinzice de lado e transformar o que poderia ser um inconveniente, ou obstáculo, em algo divertido? O meu sobrinho está certo com sua indiferença em relação ao tempo chuvoso. Ele tem preocupações maiores como por exemplo: saber o que o Octopus vai aprontar na próxima história da graphic novel do Homem-Aranha que ele não conseguiu terminar de ler. No caminho, fomos cantando a música de Frozen, adaptando o você quer brincar na neve? para você quer brincar na chuva? E nos dois últimos minutos, dos cinco que durou a nossa jornada aos nossos respectivos destinos, a chuva simplesmente parou. Não parei para pensar e afirmar que estávamos com sorte. Era dispensável e, talvez, até equivocado.


Decidi parar de pensar muito nesse tal de inferno astral também. Talvez eu que esteja vendo demais em situações extremamente comuns e rotineiras apenas porque acho que, perto de uma ocasião especial como um aniversário, tudo deveria ser perfeito. Mas não é. 

Comecei o mês magoada por conta de uma crítica. Ora, recebemos críticas o ano inteiro. Reconhecimento é que ganhamos lá uma vez que outra. Uma vez na vida, outra na morte como salienta aquele sábio adágio popular. Também chove durante boa parte do ano e, incrivelmente, bem quando temos compromissos. As coisas nem sempre saem como a gente quer. Tem vezes que tudo dá errado. Mas o erro é nosso ao acharmos que tudo deve ser da forma como a gente imagina. Também somos acostumados demais a seguir uma rotina, planejar demasiadamente, fazendo de cada ação quase uma regra que não deve ser quebrada sob nenhuma circunstância, e seguimos o protocolo à risca. Enlouquecemos quando algo foge do nosso esquema diário. Um atraso, um telefonema que nos pega de surpresa e modifica totalmente os nossos planos, mudanças na agenda... É impossível esquematizar a vida. Acontecimentos inesperados estão sempre ali, prontos para nos pegar desprevenidos e surgem como se não fossem nada de mais. É algo que está totalmente fora das nossas mãos, além do nosso controle.

Posso transformar o tal do inferno astral ou, melhor dizendo, os obstáculos e dificuldades que surgem, eventualmente, em algo que impulsione a minha força criativa. Posso colocar no papel, escrever sobre eles... é uma boa forma de desabafo. Assim como transformei uma caminhada embaixo de chuva em algo até divertido ao lado do meu companheiro de aventuras, Eloy. Posso sair de casa pronta para receber uma tempestade de críticas. Ou ter em mente que pode ser um dia agradável, em que farei o melhor que posso e, de repente, serei até recompensada com uma palavra gentil por isso. 

Na verdade, não temos uma infinidade de escolhas. Seria muito difícil se decidir por uma delas. Ainda mais no caso de uma libriana! Temos duas escolhas: Sentar, lamentar e chorar; ou levantar, erguer a cabeça e enfrentar mais um dia. Temos a opção de fazer do nosso dia algo bom ou ruim. Se as pessoas à nossa volta insistem em estragar nosso humor, podemos escolher entre permitir isso e abraçar a frustração; ou ignorar, deixar pra lá e mandar um belo de um foda-se.

Hoje, quando a senhora que traz o café e o chá na sala onde trabalho, entrou com seu costumeiro sorriso, um bom dia cheio de entusiasmo e ainda complementou com um aproveitem o café e o chá quentinhos, parei para pensar no seu dia a dia. Pensei nas escolhas que ela tem de fazer. Ela também levanta cedo - mais cedo do que eu - e precisa optar entre encarar o dia com a cara fechada por ter de sair da cama quente e confortável, enfrentar a chuva e exercer uma função cujo salário poderia (deveria, aliás) ser um pouco melhor; ou ter um sorriso estampado na face, dizer bom dia a todos e aproveitar as pausas no trabalho para colocar a conversa em dia e rir com seus colegas. São escolhas que fazemos quase inconscientemente. O mesmo com a garota estilosa e com alto senso fashion que veio para vender doces, hoje, no meu trabalho. Com toda aquela simpatia, carisma e jeito alegre de falar, era impossível recusar um doce. O dois amores parecia um tanto pequeno demais para custar quatro reais. Mas comprei. A situação está difícil, então não tem como vender por menos do que isso... as pessoas precisam ser compreensivas também. Os ingredientes são caros, dá trabalho preparar estes doces e exige talento deixá-los tão aprazíveis aos olhos quanto ao paladar. E querem saber? Podia ser pequeno, mas o sabor do doce valeu cada centavo. Ao invés da amargura de um dia cinzento cheio de gente querendo puxar o seu tapete diante da menor de suas falhas, optei por adoçar a boca e não me preocupar com a chuva que caía lá fora. Mais uma horinha e cinco minutinhos até em casa. Reclamar para quê quando eu podia me ocupar de apreciar meu dois amores?

*Salut*

3 comentários:

  1. Acho que o melhor a se fazer é enfrentar a vida com entusiasmo. Sabendo que ela poderá melhorar.
    Adorei o texto!

    http://www.jj-jovemjornalista.com/

    ResponderExcluir
  2. Muito bom o post. ;-) Tudo depende do nosso olhar, né? Impressionante. Quando ficamos preocupados com esses detalhes, a vida parece bem pesada. Mas quando relaxamos, a vida fica mais leve e flui melhor. Nem todos os dias são perfeitos, porém... Acho que esses dias ruins servem pra gente dar mais valor para os momentos bons, sabe? ♥
    E se não fosse a chuva, quem iria cantar "você quer brincar na chuva" com o sobrinho, né? Adorei. E assim, já acreditei muito em inferno astral, mas hoje em dia to mais tranquila. Acho que se a gente acredita muito, ai as coisas dão errado mesmo. ;)

    Beijos,
    Carol
    www.pequenajornalista.com

    ResponderExcluir
  3. Bem nessas...! Abandonei há um tempo a minha neura sobre zodíaco, inferno astral e destino, mas ela insiste em dar as caras em determinados momentos. Entendi perfeitamente o que quis dizer, e me vi muito nessa postagem. Infelizmente temos a mania (ou seria a obsessão?) de dizer que qualquer imprevisto que ocorra vai de uma forma ou de outra nos atrasar. Acontece que algumas vezes eles são capazes até de nos adiantarem, mas somos cegos o suficiente para não perceber tal fato. Beijos, Light As The Breeze

    ResponderExcluir