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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

[Café com páginas] Desmitificando super-heróis: Watchmen e Ex Machina


E este é o meu centésimo post aqui no blog! E para comemorar este número tão surpreendente (nem tanto assim) de postagens, decidi falar sobre um assunto que eu amo mais do que deveria: histórias em quadrinhos. As HQs foram marginalizadas desde seus primórdios, vistas como leitura fácil por muitos, inclusive por educadores, por conta da associação entre verbalidade e imagem. Ora, se um livro tem figuras não se trata de uma leitura desafiadora. Este pensamento não poderia estar mais equivocado. De qualquer forma, foi com esse preconceito que os quadrinhos foram tratados durante muito tempo. Com o surgimento dos super-heróis, então, muitos intelectualóides alegaram se tratar de narrativas pueris. Porém, na década de 1980, surge a tríade de mestres dos quadrinhos composta por Alan Moore (Watchmen), Neil Gaiman (Sandman) e Frank Miller (Batman – O Cavaleiro das Trevas, Sin City) que desconstroem todos os mitos que rondavam o universo das comics, inclusive sendo alguns dos poucos quadrinistas a ganharem prêmios importantes no meio literário e terem suas obras comercializadas como álbuns de luxo. Um legítimo tapa na cara dos preconceituosos. Depois deles, os quadrinhos passaram a ser tratados como literatura efetivamente. E vistos como obras de autor, não de personagens. Abaixo, além de Watchmen, indico outro título igualmente extraordinário: Ex Machine. Então, se a minha opinião valer de algo para vocês, recomendo que leiam histórias em quadrinhos. Não é coisa de criança, muito pelo contrário ;)

Watchmen


A obra seminal de Alan Moore, um marco na história da nona arte, um trabalho que mudou definitivamente o panorama dos quadrinhos. Todas estas palavras já foram atribuídas a Watchmen um milhão de vezes. Exagero? De forma alguma. Lançada originalmente em formato de série mensal, em 12 edições, pela DC Comics entre os anos de 1986 e 1987, a HQ apresenta um mundo no qual os super-heróis estão desacreditados e atravessando uma terrível fase de decadência. Moore, com um texto irônico e afiado, desconstrói o mito do herói durante toda a trama, salientando o quão ridículo e espalhafatoso é andar por aí com fantasias coloridas, máscaras, combatendo o crime em uma sociedade totalmente corrompida e que parece se voltar contra os próprios que tentam protegê-la. Sem contar o fato de que mesmo os heróis apresentam condutas questionáveis, para dizer o mínimo. A construção da história é brilhante, com referências pontuais, situando precisamente a trama no contexto político, histórico e social que são retratados com perfeição. Recorrendo a metáforas visuais e narrativas bem elaboradas, ótimos ângulos e uma boa dose de metalinguagem, Watchmen mostra o casamento perfeito entre texto verbal e imagem. A obra trilha um caminho ousado, apresentando uma visão pessimista do mundo e jamais deixando de abordar a temática dos direitos civis, ainda que sutilmente, em diversas passagens. Ao brincar com as convenções do gênero super-herói, Moore trabalha de maneira inteligente com alguns clichês. Um exemplo é o plano maligno do 'grande vilão' explicado detalhadamente, no final da história, para os 'mocinhos' enquanto lutam. A passagem, ao invés de soar bizarra, funciona exatamente por conta da proposta da revista. Outro ponto interessante relativo à cena em questão é o fato de o vilão utilizar de atos extremos para justificar um bem maior; levando a um desfecho inesperado e impactante que não deixa espaço para condenações, uma vez que, como seres humanos, somos capazes de burradas homéricas na vida. E os heróis não se eximem dessa. Vale mencionar também o desenvolvimento de personagens: todos são interessantes e complexos, de natureza dúbia, mas não deixando de gerar certa empatia com o leitor. A violência gráfica impressiona. O ilustrador, Dave Gibbons, não faz concessões e retrata a crueldade humana em cenas sangrentas e chocantes. Pertinente e ainda atual, Watchmen merece o status de obra-prima ao qual foi alçado.

Ex Machina

Outra obra com um foco político acentuado e seguindo a linha que Watchmen inaugurou, este título narra a história de Mitchell Hundred, um homem comum que, acidentalmente, adquire poderes e se torna um super-herói. Até aí, já vimos essa mesma história um zilhão de vezes. Mas este trata-se de um herói realista pós-11 de setembro e frequentemente criticado e zombado por sua indumentária cafona. Deste modo, decide utilizar seu poder (em todos os sentidos) e a influência conquistada com seu traje e demonstrações de heroísmo para o "bem", se candidatando a prefeito de Nova York e aposentando o uniforme de Grande Máquina (como costumavam se referir a ele). A história é toda muito bem sacada, com discussões interessantes acerca dos direitos civis (como as tramas paralelas envolvendo uma controversa pintura de Abraham Lincoln e um casamento homossexual) que surgem com extrema naturalidade e pontualmente, sem forçar a barra ou pesar a mão no politicamente correto, nem soando equivocado ou descuidado ao tratar de temas tão importantes a ainda recorrentes. A forma como situa o herói em um contexto realista, após o ataque terroristas mais trágico da história dos USA, é brilhante. O protagonista, Hundred, é um herói carismático, felizmente, e não uma Mary Sue. Ele comete seus deslizes, não é perfeito e também usa de artimanhas e jogos políticos, mas é demasiado humano e tenta fazer o seu melhor, sem sacrificar ninguém, utilizando a sua habilidade de se comunicar e controlar qualquer máquina em benefício da sociedade. Ex Machina surgiu como uma parábola do poder em um momento dramático e de difícil superação para a maior potência mundial. E a abordagem do tema é criativa, sem apelar para o maniqueísmo, soluções fáceis ou simplistas. O roteiro de Brian K. Vaughn é extremamente feliz, acertando no tom, ritmo e ao desdobrar os principais acontecimentos da história - sem contar o fato de a obra estar repleta de coadjuvantes de peso que só acrescentam à narrativa. A arte (como não dá para deixar de mencionar) a cargo do vencedor do prestigiado prêmio Eisner de quadrinhos, Tony Harris, é primorosa, com um traço rebuscado, além de realista e autoral. Harris compôs personagens expressivos, os contornos são bem definidos e há uma preocupação de sempre atentar para os detalhes. A violência é precisamente representada e algumas passagens são puro gore. Perfeito no jogo de luz e sombras e com uma paleta de cores muito bem trabalhada, não é exagero dizer que se trata de um dos títulos em quadrinhos com a arte mais bela de que já tive notícia. Entre o material extra que vem na revista, há a sinopse detalhada da trama, perfis de personagens e dos criadores do título. Vale a pena ter na estante.

3 comentários:

  1. Gostei das hqs. Já conhecia a do Watchman.

    http://jj-jovemjornalista.blogspot.com.br/

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  2. Oiiii Andrizy

    Watchmen já conhecia, mas Ex Machina nunca ouvi falar.

    Valeu pela dica

    Beijokas

    naprateleiradealice.blogspot.com.ar

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  3. Olá,
    Eu nem era de ler quadrinhos, comecei esse ano, mas ainda não conheço nenhum de super-herói. A bem da verdade é que não sou muito ligada nessas coisas, só conheço os personagens mais básicos do tipo. Mas curti o post.
    Beijos.
    Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

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