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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

[Escritora de quinta] As lições que os babacas nos ensinam


Há uma espécie que precisa ser combatida. Ela está em todos os cantos, espalhadas pelas redes sociais, compartilhando memes infames, pronta para dizer alguma idiotice quando você dobra a esquina de sua rua, ou quando está de boas no trabalho, no cinema, nos postos de gasolina. Essa espécie tem por hábito adotar linhas de raciocínio unilaterais às quais eles veem como verdades universais. Creem que todos devem partilhar de suas opiniões retrógradas e antiquadas. Fazem piadinhas com estereótipos e pensam que todos são obrigados a achar graça. Eles são amantes dos estereótipos e adoram reduzir toda e qualquer pessoa a isso. A uma simples caricatura, recorrer a análises genéricas e superficiais ao avistar quem quer que seja. Essa espécie é conhecida como babaca e deve proceder do latim, mas desconheço sua origem.

Tem pouco tempo que tive uma experiência curiosa com um grupo destes.


Estava eu, em pleno horário de trabalho, apreciando meu café em frente ao computador quando me dei conta que havia um grupo de rapazes com seus vinte e tantos anos, se comportando como garotos de quinze, em frente à sala em que trabalho. Depois de muitas risadinhas infames e conversinhas baixas e olhares direcionados a mim (que estavam me irritando absurdamente), um deles pareceu ter sido selecionado pelos demais a entrar na sala e falar comigo.

Com licença” – ele começou, batendo na parede para anunciar sua entrada.

Eu desviei a atenção do que estava fazendo e lancei-lhe um olhar avaliador. Talvez tivesse uma pequena dose de desdém nesse olhar também, mas é algo que faço inconscientemente. Meus amigos dizem que fito as pessoas inconvenientes de maneira venenosa e até amedrontadora... Vai saber? De todo modo, deve ter sido esse o olhar que lancei ao sujeito, pois ele pareceu hesitar um pouco. Depois de um sorriso sem graça, ele recomeçou a falar:

Eu e meus amigos fizemos uma aposta aqui...” – não entendi o que ele quis dizer com isso, mas permaneci calada, observando o garoto com um olhar impassível – “Sabe...” ele prosseguiu, “a gente tava apostando se você tem namorado ou não... alguns apostaram que sim, outros que não...”.

Continuei sem dizer uma palavra.

É só responder...” – ele parecia um tanto constrangido mesmo, mas isso não o exime de ser classificado como babaca.

E por que isso seria do interesse de vocês? Não os conheço. Não tenho motivos para responder” – falei e ele ficou calado, incerto se deveria continuar ou não.

Era só uma pergunta, não foi pra ofender... a gente só tava dizendo que, sei lá, uma moça bonita como você só pode estar solteira porque quer, né? Quer dizer, se você for solteira”.

Mereceu a réplica:

Isso quer dizer que uma mulher considerada "feia" por vocês não pode namorar? Não tem esse direito? Que ela também não pode escolher ser solteira? Só pode estar solteira porque ninguém quis?

Ele parou um pouco, passando a mão pela cabeça, parecendo se sentir um pouco ridículo.

Desculpa te incomodar, não precisa ficar brava... vou indo” – ele concluiu, se dirigindo um tanto cabisbaixo para perto de seus amigos que estavam igualmente sem jeito.


Sim, concedi-me o direito de não lhe responder. Aprendi há algum tempo que a resposta: "tenho namorado" é mais efetiva do que "não estou interessada". Exatamente por conta de babacas como estes, que respeitam mais os outros homens do que o espaço da mulher.

Seguindo a lógica estapafúrdia do babaca em questão, a mulher bonita está solteira porque quer. A mulher, considerada "feia" para os padrões deles (sejam eles quais forem) estão solteiras porque ninguém as quer. Como se estar solteira fosse uma doença e nunca, jamais, pudesse ser uma opção. A teoria infame do "ninguém é solteiro porque quer" é outra babaquice sem tamanho. E abordar uma pessoa em seu local e horário de trabalho para isso, nem preciso dizer, é o cúmulo da babaquice.

Não, não pretendo recorrer à outra lógica infame e babaca de que todo homem é assim, nenhum se salva, nenhum presta, são todos iguais, só mudam de endereço e outros insultos reducionistas aos quais ousam vesti-los as misândricas. O indivíduo é mais complexo do que isso. Somos todos compostos de inúmeras camadas e nuances e é irracional e igualmente babaca ao machismo reduzir o homem a um estereótipo. Misandria só não é tão nociva quanto o machismo, pois este último vem acompanhado de um histórico terrível de violência e crueldade, mas o fundamento de ambos é quase o mesmo. E eu não apoio, sequer suporto, nenhuma variação de extremismo.

Há, infelizmente, inúmeras variações de babacas. Independe de raça, cor, credo, religião, sexualidade ou classe social. Desse modo, há babacas de todos os tipos, cores e tamanhos.

Existem babacas que, não conformados com um término de relacionamento, expõem fotos íntimas das ex na internet. Babacas que acham que podem te controlar, inclusive regular a roupa que você usa, ou que acham que está tudo bem te encarar persistente, fixa e languidamente no ônibus, acompanhando cada movimento seu, sem jamais desviar o olhar de você. Ou que acham ótimo te incomodar quando tudo o que você quer é atravessar a rua e caminhar, em paz, para casa.

Tem babacas que acham que as mulheres dividem-se em dois grupos distintos: as para casar e as para se divertir. Existem outros, ainda mais radicalmente babacas, que pensam em termos um pouco diferentes, mas a lógica é parecida: que as mulheres se dividem em frígidas e vadias. Em freiras e putas.

Assim como há babacas que trocam aquele cara legal por um fdp também babaca. E as babacas que olham bem para a sua roupa para depois decidirem se te cumprimentam ou não. E as que dizem que todo homem é um estuprador em potencial, o que é altamente babaca.


Há alguns anos, um amigo, ainda muito imaturo na época, mexeu com uma menina na rua, chamando-a de gostosa, dentre outras coisas. Não porque realmente se sentiu atraído por ela. O intuito era outro. Estávamos, então, com 16 anos. A menina deveria ter uns 13, quando muito. Eu pedi a ele que parasse. Ele se negou, dizendo que isso era bom para ela, elevaria sua autoestima e a faria sentir-se desejada. Não, cara pálida, isso não faz com que uma mulher se sinta desejada. Faz com que se sinta reprimida, incomodada, insegura de fazer um passeio ao ar livre sozinha, pois sabe que não vai ter sossego. Faz com que a gente se sinta invadida. É uma atitude babaca. Mas ainda bem que tem babaquinhas que crescem e viram sujeitos bacanas.

Sei que outras no meu lugar adorariam rir da menina, ainda mais quando acompanhadas de um garoto – como se para esclarecer que se trata de bullying, "pois essa garota jamais levaria uma cantada a sério" – que acham legal rir de outras meninas apenas para deixarem claro que são mais belas e superiores do que elas. Conheci várias assim no colégio. Eram e são babacas também.

Mas, pelo menos, os babacas tem uma finalidade, pois podem nos ensinar valiosas lições, por exemplo: como não devemos agir, pensar ou nos portar. Eles existem para isso. Reduzir pessoas a estereótipos e abordar e perturbar uma moça no pleno exercício de sua função para cumprir uma aposta idiota – de fazer uma pergunta invasiva, desrespeitando seu espaço e privacidade, assim, sem mais, nem menos.


Mas como não sou assim tão pessimista e descrente da humanidade como muitos pensam, preciso dizer que existe um sem-número de homens bacanas, não babacas. De pessoas legais. Existem homens legais, sim. E não se trata de uma espécie em extinção.

O mundo está, infeliz e irremediavelmente, repleto de babacas. O único conselho que posso lhe dar: não seja mais um nesse oceano infame de babaquice.

Um comentário:

  1. Exatamente. O mundo está repleto de estereótipos e preconceitos. Às vezes, ser solteiro é melhor do que estar namorando. O encalhado não é o solteiro, é o que fez uma escolha errada.

    http://jj-jovemjornalista.blogspot.com.br/

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